Publicado 01 de Outubro de 2019 - 16h01

Por AFP

"Foi uma cerimônia como as que acontecem todos os dias na prefeitura, mas pela primeira vez na história, dois homens puderam vivenciá-la", recorda Iván Larsen 30 anos depois, orgulhoso de ter sido um dos primeiros homossexuais a se unir oficialmente a seu companheiro na Dinamarca.

Em 1º de outubro de 1989, no dia em que a lei dinamarquesa passou a autorizar a união civil entre duas pessoas do mesmo sexo, este pastor se casou com seu companheiro Ove Carlsen, um psicólogo que havia conhecido três anos e meio antes em um bar de Copenhague, algo banal hoje em dia no mundo ocidental mas sensacional naquela época.

Na véspera de festejar suas bodas de pérola, esse casal discreto recorda a efervescência de um momento "histórico".

Era domingo na capital do reino escandinavo e Tom Ahlberg, vice-prefeito encarregado dos casamentos, havia aberto excepcionalmente as portas da majestosa prefeitura neogótica para celebrar as "alianças" de 11 casais homossexuais.

Ove usava uma gravata-borboleta rosa e Iván, uma azul. Ambos usavam ternos cor de creme e tinham 42 anos. Foram o segundo casal a oficializar sua união, depois de Axel e Eigil Axgil, de 74 e 67 anos, dois precursores da causa gay na Dinamarca, hoje falecidos.

"Haviam dito que podíamos convidar 25 pessoas para a sala de casamento. Foram três", conta Iván Larsen.

"Por culpa dos jornalistas", completa seu marido.

Após a cerimônia, cada casal foi recebido por uma multidão de entusiastas reunidos para a tradicional chuva de arroz, antes de subir em uma carruagem com direção à sede do movimento LGTB.

Estrelas em vários meios, atores de um show que contrasta com seu pudor, Iván e Ove aceitaram o desafio voluntariamente.

"Pensamos que era necessário falar do que acontecia na Dinamarca, transmitir a mensagem: "é bom e é possível", afirma Ove Carlsen. Foi necessário esperar quatro anos até que outro país, Noruega, legalizasse a união dos casais homossexuais.

No entanto, viver sua homossexualidade abertamente nem sempre foi fácil para Ove. Primeiro se casou com uma mulher com quem teve dois filhos. Depois um câncer mudou sua vida.

"Minha ex-mulher me disse: "você precisa viver sua própria vida"".

Já divorciado, conheceu Iván, com quem escreveu uma página da história. "Casar naquele dia foi um ato pioneiro", explica Larsen.

Na Dinamarca "a homossexualidade era passível de pena de morte até 1866 e ser abertamente homossexual só passou a ser possível em 1933", lembra.

Orgulhosa de ser vanguardista em termos de costumes e tradições, a Dinamarca deve a adoção da lei sobre a união civil à exclusão do direito à adoção, estima Michael Nebeling Petersen, professor titular em ciências humanas na Universidade do Sul da Dinamarca.

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