Publicado 30 de Setembro de 2019 - 19h05

Desafiado a encontrar aquilo que poderia representar os melhores momentos de sua vida, das boas experiências às situações em que foi preciso saber se reinventar, o maestro João Carlos Martins mergulhou fundo em sua memória afetiva para escrever João de A a Z, livro lançado pela Editora Sextante no último dia 27 e disponível nas livrarias.“Os últimos tempos têm sido desafiadores e estimulantes, pois a pior coisa que aconteceu em minha vida foi perder as mãos para o piano, e a melhor coisa que aconteceu em minha vida foi perder as mãos para o piano. Sobraram dois polegares, mas garanto que são dois polegares atrevidos. Sobraram também os olhos, os braços e o corpo para desenvolver a atividade de maestro do meu jeito, sempre procurando transmitir emoção através da música. Em outras palavras, vão-se mãos, mas ficam os braços, o coração, os olhos, o cérebro, a fé”, conta o maestro.Do menino que começou a fazer aulas de piano aos 7 anos e com apenas 20 já se apresentava no Carnegie Hall, nos Estados Unidos, o livro-testemunho do gênio artista é como um almanaque de memórias e reflexões de sua trajetória. De um lado, o dom e a dedicação, do outro, a luta contra uma limitação motora, que apesar de impor limites, não o impediu de chegar aos mais importantes palcos do mundo.Em João de A a Z, os capítulos foram escolhidos em ordem alfabética: vai de Amor, passando por Bach, Concerto, Disciplina, Esperança, até chegar ao Zênite e, em cada um deles, o autor vasculha as lembranças, alegrias e dores de um pianista incansável que segue em plena atividade.“Neste livro, escolhi a ordem alfabética porque posso organizá-lo a partir das ideias, e o A a Z tem o sentido de completude. Aos 79 anos, não gostaria de ensinar ninguém, mas mostrar o que a vida me ensinou e aproveitar para dividir emoções, pois só sabe multiplicar aquele que aprende a dividir. Sou inquieto, muito ativo, mas tranquilo. Há 16 anos o piano vem se tornando secundário na minha vida profissional. A função de maestro virou a dominante. Descobri que a regência me sacia musicalmente e realiza a minha necessidade de palco. Se houvesse um índice de satisfação com o trabalho, o meu seria 10”, explica João, que celebra o desenvolvimento da Orquestra Bachiana Filarmônica Sesi-SP, fundada por ele em 2004.“Reinvenção é uma das palavras da minha vida, ao lado de determinação e obstinação. Depois de dois documentários europeus e um brasileiro, três livros, um filme e uma peça de teatro, achei que estava na hora de fazer algo diferente. Sou um observador do meu tempo. Desfrutei das delícias do sucesso e fui mais forte quando consegui me reerguer das dificuldades e dos fracassos. Fiquei cansado, desisti duas vezes de tocar piano, pensei até em me matar. Apesar da minha história feliz, não quero contar vantagem. Creio que tenho muito a dizer sobre vacilos e descuidos. Cometi mais do que deveria e menos do que podia”, revela o maestro.No novo livro, João Carlos Martins aborda também a importância de encontrar um propósito em seu ofício e dos aliados neste caminho. “Conseguir viver dessa maneira é uma forma de unir trabalho e prazer. Incertezas profissionais e crises fazem parte de qualquer caminho ou carreira profissional. Para superá-las, precisamos de discernimento e força de vontade. E também de amigos e conselhos”.Em paralelo ao seu trabalho à frente da Bachiana Filarmônica, o maestro idealizou o projeto Orquestrando São Paulo e Orquestrando o Brasil, que oferece capacitação para regentes e músicos, divulgação e apoio ao trabalho. “O Orquestrando é uma plataforma de integração que busca unir regentes e líderes de grupos musicais dispersos por todo o país. Muitas vezes esses regentes não têm nenhum apoio técnico que não o do projeto. Procuramos romper o isolamento desses grupos”, resume Martins.