Publicado 30 de Setembro de 2019 - 5h30

Para mim, muito mais do que baleias, tubarões, golfinhos ou moreias, Mauro, ele sim, é um verdadeiro habitante do mar. Eu o conheci num Verão dos anos 80 quando, no pequeno barco que então possuía levou a mim e a uma equipe de TV da Itália para trabalho jornalístico na ilha Mexiana, ao norte do Marajó. Durante os quase 15 dias em que ficamos por lá eu e Mauro batemos intermináveis papos no convés do “Açaí”, que é como se chamava a escuna de sua propriedade.

– Você sabe – ele me perguntou certa noite – do que realmente gosto?

– Além do mar? – Indaguei.

– Não, dentro dele.

– Pesca? – Arrisquei, sem convicção.

– Não – ele me olhou nos óculos – dos tesouros.

Efetivamente o litoral de águas relativamente turvas que bordeja o Pará não é exatamente o cenário que se imagina para a movimentação de caçadores de tesouros submersos em porões de navios que naufragaram. Alguns casos reais de descobertas realmente aconteceram, e dois ou três, acho, até contei em crônicas para jornais. Contudo, a paixão com que Mauro falou, naquele já distante ano do século passado, me levou a certas perguntas. Uma delas: como seria possível, em águas não tão claras, avistar algo nos pélagos?

– Pois aí é que está – meu amigo respondeu – é preciso saber procurar.

Daí praticamente provou, por A mais B, que as dificuldades para os mergulhos só aumentam a reserva do que se encontra no fundo das águas do Atlântico que correm ao largo da região amazônica.

– Tateando – Mauro me garantiu – há possibilidades de achar. E eu estou tateando.

– E que pistas você tem?

– Pelo menos cinco galeões espanhóis e portugueses, cheios de ouro, estão à espera de quem os ache entre a foz do rio Amazonas e o Maranhão.

Desta amena conversa em diante encontrei com Mauro várias vezes, e posso garantir que nenhuma delas foi, digamos assim, prosaica. Em 1992, por exemplo, enquanto almoçávamos na casa do comandante Joca, um outro lobo-do-mar, na ilha de Colares, no delta amazônico, uma súbita ventania, seguida de chuva torrencial, praticamente partiu no meio o “Açaí”, charmoso barco do nosso personagem. No Verão do ano seguinte, com a embarcação completamente renovada, ele apareceu, inesperadamente, na praia de Paquara, onde eu estava em “dolce far niente”. O detalhe é que um pescador da localidade havia sido picado por cobra venenosíssima e não havia, num raio de muitos quilômetros, possibilidade de achar algum frasco de soro antiofídico. Pois, surpreendentemente, Mauro o possuía na pequena farmácia de bordo. Foi a salvação do quase moribundo.

Está claro que não vou, aqui e agora, narrar outros encontros, porém, em todos eles, nunca perdi oportunidade de fazer a pergunta:

– E os tesouros submersos?

– Estou procurando...

– Já chegou, pelo menos, perto de algum?

– Todos os dias – ele sorriu – no litoral do Pará, você flutua sobre moedas de ouro.

Pois bem, estou contando isso tudo porque só fui tropeçar novamente nos pés de Mauro já neste ainda relativamente novo século 21. Foi em Salinópolis, litoral do Pará, certa manhã em que saí para comprar peixes no Porto Grande. O navegador caminhava, apressadamente, a levar, enfiado no braço direito, grande rolo de cordas. Como tomou o rumo da ponte onde estava ancorada uma embarcação, fui junto, para ver meu amigo, com insuspeitada agilidade, saltar para o convés de um flutuante absolutamente novo, cheirando a tinta.

– Aposentou o “Açaí”? – Perguntei.

Ao invés de responder logo ele depositou o rolo de cordas junto ao mastro e me garantiu que, finalmente, tinha encontrado o primeiro tesouro, em mais de 20 anos de procura.

– Espera aí onde você está – me disse, levantando as duas mãos.

Submergiu então para o compartimento inferior do barco, de onde voltou com uma moça, morena, francamente bonita e com, certamente, menos de 30 anos.

– Eis aqui o tesouro – me apresentou

– Você o encontrou em algum galeão espanhol naufragado onde?

– Nas costas do Piauí.

– Bem – eu sorri – lá é bem mais fácil de avistar tesouros, porque as águas do mar, sem influência do rio Amazonas, são claras.

– Aqui – apontou para os olhos incrivelmente verdes da beldade – você tem duas esmeraldas.

– Alguma pérola? – Arrisquei.

– Espere até ela sorrir...

A menina me estica a mão, paciente com as brincadeiras, murmurando um “muito prazer”, a sorrir com dentes alvíssimos, maravilhosos. E como o casal estava partindo, pulei de bordo para a ponte. Ainda gritei para a moça:

– E eu nem fiquei sabendo como você se chama...

Ao que Mauro apontou para a proa do barco. Onde, em letras azuis, estava escrito o nome: “Valquíria”.