Publicado 29 de Setembro de 2019 - 19h05

A maldade é a protagonista absoluta de A Dona do Pedaço. Embora Maria da Paz, de Juliana Paes, tente a todo custo celebrar a beleza de viver em paz com a própria consciência, são os vilões que dominam a cena da atual trama de Walcyr Carrasco. Grande parte dos personagens da novela foge do bom e velho maniqueísmo e percorre caminhos pouco ortodoxos até seus objetivos. Sem querer soar apenas ambíguo, o autor garantiu bons vilões como Régis, Josiane, Otávio e Agno, defendidos por Reynaldo Gianecchini, Agatha Moreira, José de Abreu e Malvino Salvador, para passar sua mensagem. Para não ter de esperar até os últimos capítulos para punir as atrocidades cometidas, Walcyr ainda utiliza-se de Fabiana, de Nathalia Dill, vilã ainda mais sórdida e sem escrúpulos, para ser o algoz de todos os “pecadores” do folhetim.

Quebrar o protocolo da tradicional disputa entre o bem contra o mal e deixar os antagonistas caírem nos próprios golpes é uma tática esperta do autor, que acaba saciando o desejo de justiça do público e movimentando melhor o elenco.

Sem grande profundidade e um tanto repetitiva no discurso de que “foi criada em um convento”, Fabiana poderia soar extremamente perdida não fosse o talento de Nathalia. Do início obscuro até a ganância atual, a personagem que, aparentemente busca reparar o fato de ela ter sido criada com poucos recursos e a irmã ter sido adotada por uma família abastada, se adéqua perfeitamente ao tipo de vilã que cai no gosto do telespectador: divertida, charmosa e sem filtros.

Ao dar um golpe financeiro em Agno, revelar as relações extraconjugais de Otávio ou extorquir Josiane, por exemplo, o fascínio só cresce e a deixa no centro nervoso de ação da trama das nove. Depois de muitas heroínas, Walcyr agora diverte com a vilã justiceira. É um respiro de criatividade necessário em uma história que vem se perdendo ao longo de sua exibição. Antes muito promissora, a trama de ares feministas de Kim, de Mônica Iozzi, resultou vazia e sem efeito. O mesmo vale para o vai-e-vem entre Chiclete e Vivi, papeis de Sérgio Guizé e Paolla Oliveira. Apesar da sintonia nas cenas mais quentes, fica difícil crer no amor puro e idealizado do casal formado pela “digital influencer” e pelo matador de aluguel.

Com fim programado para novembro, A Dona do Pedaço passa por um momento delicado. Com a trama já toda desenvolvida, autor e direção tem apelado para cenas e situações que nada acrescentam. Josiane, por exemplo, vive sofrendo com os golpes da vida, enquanto a situação amorosa de Maria da Paz, Régis e Amadeo, não toma qualquer rumo. Tanta acomodação parece ser fruto do sucesso da novela com a audiência. Com o telespectador já fidelizado, o autor testa seu poder de entretenimento em conceber diversos capítulos sem qualquer propósito. Prestes a completar 20 anos de Globo, Walcyr comprova mais uma vez sua eficiência e a versatilidade de sua dramaturgia, que já passeou com êxito pelas faixas das 18h, 19h e 23h. Depois de já ter trabalhado em parceria com nomes como Walter Avancini, Jorge Fernando e Mauro Mendonça Filho, o autor parece ter encontrado na diretora Amora Mautner outro grande olhar para seu texto. Embora algumas cenas de ação pareçam toscas, é em sua obsessiva direção de atores que Amora se destaca e acaba valorizando a obra do autor. (Da TV Press)