Publicado 29 de Setembro de 2019 - 19h05

Era um casal já meio entrado em anos, ambos com mais de sessenta. Mesmo estando naquela fase de poucos papos, a mulher, ao saber que o marido faria uma viagem de negócios à Amazônia, chegou-se a ele, com jeito, com tato. Mostra um papelzinho, no qual estava escrito um nome. Pergunta:

- Você já ouviu falar disso?

- Disso o que?

- Disso que está escrito no papel. Pode pegar e ler?

Ele obedece. Em seguida, olhando pra ela, indaga:

- Não, nunca ouvi falar. O que é?

- É uma erva. Ela só existe nas selvas profundas. Como as que existem lá no lugar para onde você está indo.

Primeiro, o camarada coça a ponta do nariz. Em seguida arfa, com um tom nada receptivo:

- Isso aí – balança o papelote no ar -- você acaba de me dizer que só existe nas selvas profundas... Mas e daí?

- E daí – a dona, sem alterar a voz , segue – e daí que eu queria que você trouxesse uma certa quantidade desta erva para nós.

- Para nós? – Ele leva as duas mãos ao próprio peito.

- É, para nós. Para fazermos um chá.

Só então o fulano pega novamente o papel no qual estava escrito o nominho e o lê várias vezes. Torna:

- Bom, Nair, afinal de contas, que negócio é esse?

Ela não responde logo, com a vista cravada nos óculos do marido. Por fim, como se emergisse de um mergulho, solta:

- É que esta erva, meu caro, produz um chá que todos rotulam como absolutamente milagroso.

- Em que sentido, Nair? – Ele parecia impaciente.

- Dizem – agora ela parecia segura – que tanto os homens como as mulheres que o tomam, readquirem o vigor.

- Que vigor? Isso – ele ironiza – pra mim é marca de leite...

- Só que, neste caso, estou me referindo ao vigor dos vinte anos. Exatamente aquele que você esbanjava na época da nossa lua de mel.

- Ora, francamente, Nair!

- Não – a dona insiste – é verdade, verdade mesmo, nua e crua. Coisa de índio, sabia? Coisa da sabedoria dos aborígenes. Nunca te disseram que eles transam até os 100 anos?

- Minha Nossa Senhora! Então você está me dizendo que os silvícolas da Amazônia descobriram o Viagra muito antes dos civilizados? É isso?

- Não. O que estou te dizendo é que o chá feito com a erva cujo nome está no papel faz o Viagra parecer uma simples bala de chocolate.

- Pelo amor de Deus – o cara se agita – você tem cada uma!

- Pense o que você quiser. Mas já que está indo pra Amazônia, me traga essa bendita erva, tá OK?

- Ora... Ora... – Ele esfrega as mãos, impaciente.

- Vamos fazer o seguinte – ela pega o papel – quando arrumar tua mala vou colocar isso bem em cima das roupas. Pra você não esquecer.

- Pra mim, você anda com ideias de jerico, Nair.

- Vai, vai, deixa de ser chato, Jeródio!

Efetivamente dias depois, ao chegar ao hotel, em Manaus, a primeira coisa que o cara encontrou, ao abrir a mala, foi o tal papelote com o nome da erva. Novamente releu e, mecanicamente, enfiou no bolso.

Na manhã seguinte, ao fazer uma viagem de táxi, nosso herói, lembrando da encomenda da esposa, perguntou ao motorista onde poderia encontrar aquilo. O fulano, antes de mais nada, deu um sorrisinho maroto. Depois, murmurou:

- Posso leva-lo lá. Mas é longe, no sitio de um feiticeiro indígena. Ele é conhecido como cacique Odair.

- Seja o que Deus quiser – vem a concordância.

Porém no sábado, quando não tinha nada para fazer, Jeródio resolveu experimentar o tal chá. Mandou preparar uma boa dose e ingeriu, sem nenhuma expectativa, nada menos de duas xícaras. Só que o efeito, absolutamente inesperado, não poderia ter sido mais fulminante. Pois atacou, com notável sucesso, a arrumadeira do hotel. À noite, saiu com a dona da loja de souvenirs. E, domingo pela manhã, incansável, marcou encontro, para depois do expediente, com a servente do café.

Finalmente na quinta-feira, após seguidos encontros que o fez conhecer vários motéis da cidade, voltou para São Paulo. Devendo-se ressalvar que, à bordo do avião, cantou a comissária e, já em Cumbica, se derramou em gracejos para a atendente do guichê dos táxis. Mal entra em casa, a esposa se precipita:

- E então?

- Então o que, Nair?

- Trouxe?

- Se eu trouxe? O que?

- A erva indígena. Trouxe?

- Ora, francamente. Então você acha que eu, numa viagem de negócios vou ficar andando atrás de cipós afrodisíacos?

Dito isto jogou o assunto para escanteio e, no dia seguinte, foi à companhia de aviação recolher a mala com vinte quilos do produto que despachara para o seu escritório. Nessa mesma tarde, pelo telefone, marcou três encontros. As idades, somadas, das gurias, era menor do que o número de anos que pesavam nas costas de Nair.