Publicado 07 de Setembro de 2019 - 19h05

- Eu bebo para esquecer – ele me disse, olhando nos meus óculos.

- Ora – observei – nos meus tempos de guri um cantor, chamado Vicente Celestino, faturou uma bela nota em cima da problemática desta tua ânsia em busca do olvido.

- Vendendo bebidas?

- Não, vendendo discos de uma canção chamada O Ébrio; aliás, virou até filme que lotou salas de cinema de norte a sul deste país.

- Ora – o outro me encara de forma até mais firme – estou te dizendo que bebo para esquecer, mas não sou isso.

- Isso o que?

- Ébrio!

- Não – ergo as duas mãos – longe de mim querer insinuar qualquer coisa. Recordei do velho cantor apenas por recordar...

- Ora – ele sorri – vai ver que, pra você, isso acaba sendo uma boa lembrança...

- Nem boa nem má. Mas recordo, num bar que tinha perto de casa naqueles tempos, da música tocando e todos a ouvir. Embevecidos.

- Pois é – o amigo volta – só que quanto a mim eu bebo para esquecer. Simplesmente...

- Espero – coço a ponta do nariz – sinceramente, que você esteja conseguindo.

- Ah, sim – ele bate com a ponta dos dedos na dose de uísque, na mesa do bar – com isso aqui não tem erro. Com este santo líquido, oriundo das Terras Altas da Escócia, nada mais de Soninha em minha cuca, saca?

- Soninha... Soninha...

- É, Soninha, ela mesma que você tá careca de saber quem é. Só que, com isso aqui – agora ergue o copo – nada de Soninha na minha cuca! Tenho uma baita ajuda para esquecer.

Como, diante do peremptório eu não dissesse mais nada, ele se ajeita na cadeira, vai ao banheiro, volta, torna a se ajeitar. De repente, lança a pergunta, como um dardo:

- Você também já foi corneado?

- Bom – busco me recuperar do impacto da indagação – eu acho que todo cara, de uma forma ou de outra, foi.

- Não – ele junta as mãos – não estou falando de ser corneado assim, de uma forma quase subjetiva, como pode ser comum. Eu falo de corneação mesmo, daquela de derrubar.

- Já – acabo admitindo – já curti uma ou duas dores-de-corno realmente brabas.

- Pois é... – o angustiado baixa os olhos – Mas duvido, duvido, mesmo, que tenha sido como essa maldição que estou sentindo pela Soninha.

Dá um gole, limpa os lábios com a costa da mão direita; após, bate no próprio peito:

- Dói aqui, você percebe? Afinal, a Soninha é linda, sexy, inteligente, boa de cama, tudo. Tudo, meu bom Deus, tudo! E a cretina me tascou uma baita de um par de chifres!

- Ora, francamente, isso acontece nas melhores famílias – não consigo achar nenhum outro lugar comum melhor.

- Mas a Soninha – ele segue – aqueles olhos irremediavelmente azuis, aquela boca sensual, aquele maravilhoso cheiro de Opium de Yves Saint Laurent saindo do corpo dela o dia inteiro... Meu Deus... Meu Deus!

- Escuta – diante de tal angústia tento ser racional – pelo jeito você não está bebendo para esquecer.

- Como não? – Ele me encara.

- Bom – passo a mão na testa – estamos aqui já faz algum tempo, você já derrubou pelo menos umas cinco doses desse maravilhoso scotch, e não conseguiu falar de mais ninguém e mais nada que não seja a Soninha. Qualé? Que esquecimento é esse?

- Aí é que está – ele torna – se fico sóbrio, me tranco em casa e lembro dela o dia inteiro, sozinho.

- E aqui?

- Aqui, pelo menos, eu me alivio contando, para amigos que nem você, que bebo para esquecer.

Vira-se, estala os dedos chamando o garçom, e me põe a mão no ombro:

- Vamos derrubar mais uma? Quem sabe, assim, ela me sai da cabeça...