Publicado 29 de Setembro de 2019 - 5h30

Eu já desisti de muita coisa na vida e de outras não abro mão. Discutir com algum petista ou bolsonarista, por exemplo, de maneira a fazê-lo entender, através de um raciocínio lógico, que o PT só sobreviverá se o Lula e os seus cupinchas forem banidos da sigla. E o mesmo vale para o PSL do Bolsonaro. E não vou expor aqui os motivos por demais óbvios. Disso desisti há muito tempo. Mas não abro mão da liberdade que só vim a conhecer aos quarenta anos de idade, razão única onde se assenta os meus princípios.

Daí que me preocupa o futuro democrático dos meus filhos e netos, dos meus e de todos, é claro, embora muitos digam que o Brasil já alcançou a sua estabilidade política. Não sou idiota e tampouco paranoico. Sei muito bem que a democracia, sim, ela mesma, é a melhor ferramenta para um canalha galgar o poder e, veja só, nele se perpetuar: uma vez lá, troca-se votos do Congresso por benesses de emendas e volta-se ao velho jogo da velha política. O mais do mesmo, portanto.

Muita gente acha que me preocupo com besteiras, caçando pelo em ovo. Estão enganados. Ou preguiçoso demais para pensar no perigo que existe quando alguém nos tira um mínimo de liberdade que seja para obter um bem maior: a preservação da moral e dos bons costumes das nossas crianças. Parece legal, não é? Pois não é. Fazer o mal (tirar dos pais a liberdade de escolha) para se obter o bem (a preservação da moral das crianças), é de uma canalhice sem tamanho. Impossível alguém retirar do mal algum bem. Isso é coisa de gente fascista e a História está repleta de tristes exemplos.

“O Brasil vai bem, crescendo como sempre por inércia. O povo é que continua mal”. O autor desta frase foi o então ministro do planejamento, Paulo dos Reis Veloso, no início dos anos setenta. Portanto, ministro da ditadura militar. Mas não foi recriminado por isso. Sua reputação estava acima à dos brucutus militares, visto ser ele um grande estrategista econômico e intelectual dos mais respeitados. Dentro e fora do país.

Brasil rico; povo pobre. Doente e semianalfabeto. Trabalhador e ao mesmo tempo sendo tratado como um indigente profissional através de programas como o do bolsa-família petista. Estrutural, conjuntural, cultural, dê-se o nome que se queira a essa aberração o que sobra é o político que tudo faz, e mais alguma coisa, para se manter no poder e viver usufruindo das benesses do cargo que exerce. Repare: antes se reuniam na calada da madrugada para elevar seus salários; hoje fazem isso à luz do dia (é isso o que entendem por “transparência”), sem pejo algum. Exagero não. Por exemplo, a Câmara Municipal quer elevar o número de vereadores de Campinas para 35 edis, o que é legal, segundo a Constituição. Precisamos de mais dois vereadores para bem atender e defender o interesse dos contribuintes da cidade? A pergunta é a própria resposta, é claro. E o que é legal nem sempre é moral diante da crise econômica que se abate sobre todas as cidades brasileiras. E qualquer tostão economizado sempre é de boa serventia para melhorar o atendimento médico público e cuidar das ruas, praças e calçadas da cidade. E a saúde nacional é isso aí, hospitais caindo aos pedaços, falta de médicos, a dengue se alastrando, a tuberculose matando mais que a Aids e, de quebra, o antiquíssimo sarampo chegando como o rei da cocada preta.

E paro por aqui atendendo aos pedidos das minhas trôpegas e desesperançadas muletas existenciais. Elas juram que não têm nada com isso.

Bom dia.