Publicado 30 de Setembro de 2019 - 7h30

Por AFP

O ex-chanceler Sebastian Kurz inicia nesta segunda-feira a busca por sócios para governar a Áustria, respaldado por sua ampla vitória nas eleições legislativas de domingo, mas privado do apoio da extrema-direita, sua antiga aliada, e diante do desdém dos outros partidos.

Os 37% de votos obtidos por Kurz nas eleições, de acordo com resultados preliminares, representam uma considerável revanche para o líder do Partido Popular Austríaco (OVP), quatro meses após a queda de sua coalizão com o Partido da Liberdade da Áustria (FPO), de extrema-direita, em consequência da explosão em maio do escândalo de corrupção conhecido como "Ibizagate".

Porém, apesar de ter ampliado sua vantagem em relação aos rivais e de aumentar em quase seis pontos o resultado de seu partido na comparação com 2017, Kurz não tem condições de governar sozinho e terá que buscar noas alianças para retomar o posto de chefe de Governo.

Nenhum partido parece disposto a estender a mão. No domingo à noite, o FPO, que governou ao lado dos conservadores de Kurz durante 18 meses, anunciou a intenção de atuar como oposição, após um resultado nas urnas pior do que o previsto.

O partido, anti-islã e anti-imigração, que nos últimos dias de campanha enfrentou novas suspeitas de fraude, perdeu quase 16% dos votos na comparação com as eleições anteriores e "não está em posição" de governar, afirmou seu novo líder, Norbert Hofer.

"O FPO é o grande perdedor das eleições" destacou o cientista político Peter Filzmaier. Há dois anos, a coalizão entre direita e extrema-direita na Áustria foi apresentada como um modelo da ascensão dos nacionalismos.

O Partido Verde se beneficiou da mobilização internacional a favor do clima e pode ser considerado o grande vencedor das legislativas, com 14% dos votos, o que permitiria formar a maioria governamental com Sebastian Kurz.

"O mais factível é um governo turquesa (cor do OVP) e verde", afirma um editorial do jornal Kurier.

Mas o partido ecologista não pretende fazer nenhuma concessão ao líder dos conservadores, que adotou uma linha dura na imigração e rejeitou a criação de um imposto sob o carbono defendido pelos Verdes.

Apenas 32% dos eleitores do Partido Verde são favoráveis a uma coalizão com o OVP, que seria inédita na Áustria. No lado conservador, nível de apoio à aliança é ainda menor (20%).

O líder do Partido Verde, Werner Kogler, advertiu que não planeja um acordo com Sebastian Kurz a menos que este apresente uma "mudança política radical".

Durante a campanha eleitoral, a questão climática ofuscou o tema imigração. E os ecologistas, que em 2017 não conseguiram superar a barreira de 4% para entrar no Parlamento, quase multiplicaram por quatro seu resultado e atingiram 14% dos votos.

"Isto pode representar uma oportunidade para Sebastian Kurz subir no trem da ecologia, ao mesmo tempo que neutraliza a onda verde", destaca o analista Thibault Muzergues, para quem o ex-chanceler estuda seriamente esta possibilidade de aliança.

Outra possibilidade é o retorno da tradicional "grande coalizão" com os social-democratas do SPO, segundo partido mais votado (22%), 15 pontos abaixo dos conservadores, seu pior resultado desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Porém, os social-democratas tampouco se mostram empolgados com a ideia de dividir o poder com a direita, acusada de uma guinada populista sob a liderança de Sebastian Kurz.

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