Publicado 23 de Maio de 2019 - 5h30

Eu quero uma rua de terra, toda ela guardada por pequenas árvores plantadas nas frentes das casas. Quero uma casa de muro baixo, portão de trinco.

Quero uma rua inteira repleta de cadeiras na calçada, a mulherada toda conversando, tricotando linhas e receitas.

Quero a minha mãe me chamando para o banho, chamando os filhos mais velhos para a janta.

Quero sentir o perfume de talco da minha mãe, quando ela recebia o meu pai no portão da casa; quero a minha mãe de novo sentada na cadeira da calçada, trocando conversas, tricotando paixões...

Quero o meu pai conversando com o pai da minha mãe.

Quero o meu avô me pedindo pra pegar lenha para o forno de barro, ao gosto do amendoim ou do coco; quero o cheiro da lenha queimando pelo fim da tarde, estalando sua felicidade...

Quero de novo voltar a conversar com o meu amigo Tuca, morto ainda moço, sobre o jeito melhor da gente ir para São Paulo, de carona numa Maria Fumaça. Perdemos grandes horas discutindo se fosse melhor ir de manhã ou de noite. Mas viajamos em nossos pequenos sonhos...

Quero de volta a minha bola de capotão, as pedras que demarcavam os gols do campinho, os espinhos de joá, aquele som de mães berrando pelos filhos, pedindo pra voltar pra casa, tomar banho, jantar e dormir para sonhar com o novo dia...

Quero ver a moça bonita que trabalhava na Rádio Brasil, subindo a ladeira da rua Vilagellin Neto, impecavelmente linda, ostentando meias com costuras corretamente dispostas, do calcanhar ao início da coxa.

Quero ouvir o programa do Cícero Lanaro, Show do Meio Dia, Rádio Brasil, patrocinado pela Casa Boris. Quero ouvir o Lombardi Neto transmitindo uma partida de futebol.

Quero ver de novo o Dicá batendo uma falta e ver a bola caindo com o maior carinho no ângulo da trave. E vê-lo cumprimentar a galera pontepretana, com o seu imenso sorriso e grande abraço.

Queria tantas coisas, me ajeitar em palavras no colo de Hilda Hist, sentir as mãos quentes da minha vó Lucinda, ralar um bom queijo parmesão (Faixa Azul, por favor ) ou sentir o gelado da garrafa da maçã Vanucci, trazida pelo meu pai, nos domingos fantásticos do Taquaral.

Hoje, quero muito mais. Quero os olhos castanhos da minha namorada iluminados por serena alegria, sua boca sempre em sorriso e seus abraços de sereia, repletos de tantas águas de rios e lagoas. Só queria um jeito de ela entender que não tenho mais como achar um jeito para lhe amar um pouco mais. Era só isso que eu queria para ela. E ainda quero.

E também quero lhe dar um atestado de posse. É coisa pouca — mas de muita vontade e querência.

Assim, a partir de antes — que o agora já se faz tarde — é dela o descanso da minha carne.

É dela todas as minhas lembranças e os meus amigos de infância; todas as histórias que meu avô contava; e os meus sonhos mais secretos.

É dela também são as primeiras emoções sentidas, o primeiro cigarro de maxuxo, o filme proibido e o parto suado e dolorido do primeiro verso de amor que, desdenhado pela pretensa namorada, causou o primeiro porre e a primeira ressaca - os primeiros socorros de amor.

E dela serão todas as paisagens que vejo quando viajo pelos meus interiores, inventando planetas com seres calmos e belos; um campo de rosas e lírios nos meus olhos de abelha.

E também todas as minhas insônias, bem como as desvairadas madrugadas que fiz num certo botequim, com os amigos do peito, paixão e cachaça; como também a tristeza de procurar um verso escrito num guardanapo, sabendo que este, como tantos outros, foi esquecido numa mesa qualquer — tudo isso também será dela. Assim como todos aqueles versos serenos que fiz andando pelas ruas, de madrugada, e que ainda não escrevi, mas que estão na minha boca e nas minhas mãos.

Tudo o que ela quiser será dela, tudo! O passado, o presente, o futuro, tudo! Todas as paixões, as canções que fiz, aprendi, cantei, tudo! E quando ficar velho e sossegado, me deixarei partir, sereno e feliz. E esse prazer também será dela.

E assim, na tarde desta terça-feira, sem a presença de testemunhas, porque delas meu amor não carece, assino o presente documento e esperando a cara bonita da Lua carimbar o que é devido. Sem mais, assino acima.

Bom dia.