Publicado 18 de Maio de 2019 - 5h30

Moradores e representantes da Organização Não-Governamental (ONG) União Protetora dos Animais tentam impedir o abate de 50 capivaras do Condomínio Ville de Chamonix, em Itatiba. O manejo foi autorizado pela Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais, da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (SMA), no início deste mês, após um morador morrer por febre maculosa e a Superintendência de Controle de Edemias (Sucen) considerar o local como área de risco para transmissão da doença.

De acordo com o documento, datado de 6 de maio deste ano, a eutanásia tem que ser executada até 7 de março do ano que vem. “Matar ou retirar as capivaras do local não é a solução. Só piora a situação. O certo é esterilizar as capivaras, uma vez que são animais que demarcam o território e não deixam outras entrarem. Uma vez esterilizadas, não serão mais hospedeiras do carrapato estrela”, disse o presidente da ONG, César Rocha.

Para reverter o abate, o movimento precisa convocar uma nova assembleia geral do condomínio e também apresentar uma solução judicialmente legal. Rocha garante que o grupo tem defesa e proposta concreta a apresentar, mas precisa de uma assembleia.

Pelo estatuto do condomínio, para convocar a assembleia é necessário um abaixo-assinado com 128 assinaturas validadas, ou seja, de proprietários que estão com a situação regular com o condomínio. Segundo a pensionista Cleusa Cerazza, que faz parte do movimento contrário ao abate, até ontem, ao menos 111 moradores tinham aderido à iniciativa. “Estamos fazendo diversos trabalhos no condomínio e gostaríamos que outros moradores também entendessem que não é preciso tirar as capivaras daqui”, disse Cleusa.

Augusto acredita que a situação até pode ser revertida, no entanto, os ativistas devem agir rápidos, já que a empresa ambiental contratada para fazer o procedimento já começou a captura dos roedores. “A empresa já colocou ceva, que nada mais é a cana-de-açúcar para atrair as capivaras e levá-las para as armadilhas, onde ficarão presas para depois ser realizada a eutanásia”, disse o síndico.

O movimento para reverter o abate das capivaras começou no final do ano passado, após alguns moradores entenderem que a palavra “manejo” citada pela SMA no ofício enviado ao condomínio significava o gerenciamento dos animais, inclusive com abate. No documento, a Pasta apresentou duas alternativas: o abate parcial com a confinação do restante das capivaras em uma área com lago espelhado, ou o abate total. As sugestões foram levadas à votação, em uma assembleia realizada em julho.

Na época, segundo o síndico, o evento contou com a participação de 34 proprietários de imóveis e outros 22 representantes autorizados e todos votaram a favor do abate. O condomínio conta com 508 lotes e 480 famílias – sendo uma pequena parcela de veraneio.

O empreendimento é cercado, e está localizado em uma área verde, que conta com seis lagoas, por onde as capivaras circulam. O local sugerido para confinar os roedores seria um lago, onde está a Estação de Tratamento de Água do condomínio.

“O abate não é uma decisão do condomínio e os órgãos oficiais descartaram a confinação por conta da estação”, disse Augusto.

O risco de contaminação de febre maculosa pelo carrapato estrela começou a ser avaliado pelos órgãos estaduais no ano passado, após a confirmação da doença na morte de um morador. Na época, foi solicitado um levantamento da população de capivaras no local e o empreendimento contratou uma empresa ambiental que catalogou ao menos 50 animais, inclusive com filhotes. “Eu sou contra o abate. As capivaras não me incomodam. Eu moro no local desde 2007 e as acho até bonitinhas”, disse Cleusa. “Na época da assembleia, foi dito que seria feito o manejo das capivaras e a gente entendeu que era tirá-las de um local para o outro e não matá-las”, comentou.

Situação semelhante ocorreu em Campinas em 2015

Essa não é a primeira vez que a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SMA) autoriza abate de capivaras em condomínios. Em novembro de 2015, a Pasta também liberou a eutanásia dos roedores no condomínio Alphaville, em Campinas. A medida gerou polêmica entre moradores, ativistas e entidades protetoras dos animais e a matança chegou a ser suspensa temporariamente, mas os animais acabaram sendo mortos. A autorização foi dada ao condomínio após exames realizados pela Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) confirmarem que os roedores tinham anticorpos para febre maculosa. Na época, a SMA alegou que a medida foi tomada para evitar a circulação da bactéria causadora da doença entre moradores do local. A execução das capivaras foi feita por um médico veterinário contratado pelo próprio condomínio.

Em nota, a SMA informou que a decisão foi tomada com base em vistoria da equipe de fauna no local, que foi classificado como Área de Transmissão da Febre Maculosa Brasileira. Segundo a Pasta, o abate assistido de capivaras está entre as medidas de vigilância e controle da doença, conforme resolução conjunta com a Sucen. “O mesmo procedimento foi realizado em 2015”, enfatizou. “Devido à participação da espécie capivara no ciclo da doença ‘Febre Maculosa Brasileira’, o abate assistido é recomendado quando há risco à saúde pública. O procedimento é realizado sob responsabilidade técnica de médico veterinário, conforme diretrizes do Conselho Federal de Medicina Veterinária”, citou. (AR/ANN)