Publicado 15 de Maio de 2019 - 21h50

Por AFP

Centenas de milhares de estudantes e professores protestaram em todo o país nesta quarta-feira (15) contra o bloqueio de recursos para a Educação, anunciado pelo governo de Jair Bolsonaro, que atribuiu a agitação à manipulação de "idiotas úteis" por parte de uma minoria de esquerda.As greves e atos desta primeira grande contestação ao presidente de extrema direita, que assumiu o cargo em 1º de janeiro, se estenderam por quase 200 cidades dos 27 estados brasileiros, segundo informes oficiais compilados pela imprensa.Os manifestantes também atacaram a reforma da Previdência - considerada essencial pelo mercado financeiro e pelo governo para acertar as contas públicas - e contra o decreto recente de Bolsonaro de flexibilizar o porte de armas.O número oficial de participantes é impossível saber porque as autoridades de muitos estados, como o Rio de Janeiro, não publicam estimativas.Até as primeiras horas da noite, fontes oficiais registraram 15.000 manifestantes em Brasília e 20.000 em Belém do Pará. Imagens aéreas transmitidas pela TV mostravam multidões impressionantes nas ruas de Rio e São Paulo, onde os organizadores estimaram uma participação de 150.000 pessoas que repetiam palavras de ordem como "Tirem as mãos da educação" e "Livros sim, armas não".Também segundo os organizadores, houve 70.000 manifestantes em Salvador, 20.000 em Curitiba e 15.000 em Belo Horizonte.O dia transcorreu sem incidentes, fora de um confronto entre grupos de jovens e policiais em Porto Alegre e do incêndio de um ônibus no Rio após o fim da manifestação.Os protestos denunciam os planos do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de bloquear recursos, inclusive 30% do orçamento discricionário (não obrigatório) das universidades federais. A medida afeta milhares de bolsas de estudo, assim como o pagamento de contas de luz, água, serviços de limpeza e segurança.O governo alega que não se tratam de cortes definitivos, mas um contingenciamento de recursos em todas as áreas quando a renda prevista é inferior à contemplada nos orçamentos.Weintraub, convocado pela Câmara dos Deputados, explicou que o novo governo "não é responsável pelo desastre da educação básica brasileira" e advertiu que a "autonomia universitária não é soberania. As universidades têm que respeitar as leis".- 'Idiotas úteis' -Bolsonaro optou por confrontar os manifestantes, afirmando que a maioria dos manifestantes é "militante. Não tem nada na cabeça"."Se perguntar 7 x 8 não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis que estão sendo utilizados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais do Brasil", afirmou Bolsonaro, em visita a Dallas (Texas), onde será homenageado na quinta-feira pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.Estas declarações foram consideradas uma afronta por muitos manifestantes, que insistem na defesa da educação."Tenho mestrado e pós-doutorado em energia; se alguém é idiota nessa história não sou eu. Sem ciência não há saúde, nem trabalho. Estamos aqui lutando para que o Brasil continue produzindo conhecimento. Sem dinheiro, não há conhecimento", afirmou Mariana Moura, de 38 anos, pesquisadora do Instituto de Energia da Universidade de São Paulo.Desde a chegada de Bolsonaro ao poder, a Educação se tornou um campo de disputa entre os setores mais conservadores do eleitorado do capitão, decididos a extirpar qualquer vestígio do "marxismo cultural" nas salas de aula.O presidente já tinha causado polêmica em abril, ao anunciar no Twitter que seu governo analisava cortar verbas para cursos como filosofia e sociologia nas universidades públicas, com o objetivo de concentrar esforços em cursos como veterinária, engenharia ou medicina que, segundo ele, geram retorno imediato ao contribuinte.No Twitter, os três principais temas de discussão nesta tarde eram #TsunamiDaEducação,#Lula Livre e #NaRuaPelaEducação.A agitação preocupa os mercados, que apostaram em Bolsonaro para avançar em suas reivindicações de cortes fiscais.A Bolsa de São Paulo, que nos primeiros meses da gestão Bolsonaro chegou a subir quase 15% e superar os 100.000 pontos, fechou nesta quarta-feira a 91.623 pontos (-0,51%), seu menor nível desde 3 de janeiro, sob o impacto da situação política no Brasil e das tensões comerciais internacionais.O dólar superou pela primeira vez os 4 reais desde 25 de abril, chegando a 4,019, antes de recuar sutilmente para fechar a 3,97.

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