Publicado 13 de Maio de 2019 - 10h30

Por AFP

Para além do confronto comercial entre China e Estados Unidos, também há um choque de nacionalismos, entre as ambições do gigante asiático emergente e o temor de Washington de perder sua influência.Mesmo com um acordo econômico, ambas as potências continuarão a enfrentar tensões geopolíticas em temas como Taiwan, ou Coreia do Norte, a presença dos Estados Unidos no mar da China, ou as acusações de espionagem de Washington contra a companhia de telecomunicações chinesa Huawei.O acordo comercial pareceu ficar mais difícil esta semana com a entrada em vigor, na sexta-feira, de novas tarifas nos Estados Unidos contra os produtos chineses. Nesse mesmo dia, os negociadores se separaram em Washington, sem marcar uma data para uma próxima reunião de negociação.Do lado americano, o presidente Donald Trump fez da China um dos alvos favoritos de sua campanha presidencial de 2016, acusando Pequim de "roubar" empregos dos Estados Unidos.No mês passado, a diretora de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado americano, Kiron Skinner, surpreendeu, ao descrever a rivalidade com a China como "um combate contra uma civilização realmente diferente e uma ideologia diferente".É a primeira vez que os Estados Unidos enfrentam "um grande rival que não é de raça branca", disse ela, durante um fórum sobre questões de segurança.Por meio de seu porta-voz das Relações Exteriores, Geng Shuang, a China rebateu, considerando "absurdo e totalmente inaceitável" examinar as relações bilaterais do ponto de vista do "choque de civilizações e até de uma perspectiva racista".Desde a chegada de Xi Jinping ao poder, no final de 2012, o regime comunista também apela para o nacionalismo. Nesse sentido, o presidente vende para seus compatriotas o "sonho" de um "grande renascimento", após as humilhações ocidentais à China iniciadas no século XIX.- Hostilidade -"Objetivamente, a guerra comercial reforçou como nunca a hostilidade entre as sociedades chinesa e americana", tuitou no sábado o editor-chefe do jornal "Global Times", Hu Xijin."A hostilidade mútua pode se tornar incontrolável, provocando uma grande regressão do conjunto das relações internacionais. Me preocupa muito", disse Xijin, próximo ao governo e com posições nacionalistas.A guerra comercial lançada no ano passado por Trump "convenceu mais chineses, não apenas líderes paranoicos [...], de que os Estados Unidos querem bloquear a emergência da China" como potência, afirma o especialista em China Bill Bishop, editor do boletim "Sinocism" nos Estados Unidos.Pequim pode tentar aproveitar o aumento do nacionalismo, mas "é uma faca de dois gumes", que pode se voltar contra o regime, se este for acusado de fraqueza diante de Washington, diz o analista.Na China, existe "um fundo de xenofobia, em geral, e de antiamericanismo, em particular", que pode provocar apelos para se boicotar os produtos americanos, afirma Bishop, apesar de, até o momento, Pequim ter censurado convocações desse tipo nas redes sociais.Os dois países também se enfrentam para estabelecer sua influência no resto do mundo - no caso da China, com seu faraônico programa de infraestrutura chamado "Novas Rotas da Seda", que Washington considera "presunçoso".Em paralelo, a China está modernizando rapidamente seu Exército e tem o segundo maior orçamento militar do mundo, ainda longe, porém, do dos Estados Unidos.Ainda que as duas potências acabem assinando um acordo comercial, a rivalidade continuará sendo "feroz", adverte Hua Po, um cientista político independente de Pequim."Os Estados Unidos têm razões para estarem preocupados com a China", garante ele. "Embora continue sendo um país em desenvolvimento, empenha-se em alcançar os Estados Unidos", completou.ewx/lth/bar/ehl/cac/pc/mar/ttTwitter

Escrito por:

AFP