Publicado 18 de Abril de 2019 - 5h30

A dificuldade de articulação do governo que levou ao adiamento da votação do relatório da Previdência na CCJ da Câmara impôs perdas firmes ao Índice Bovespa ontem e fez o dólar subir de maneira igualmente forte.A possibilidade de o texto sofrer alterações já na fase de admissibilidade renovou os temores de que a reforma será mais difícil que o esperado - eao final pode trzer um impacto fiscal muito aquém do necessário. Com isso, a ordem no mercado de ações foi reduzir a exposição ao risco, o que levou o Ibovespa a uma queda de 1,11%.“O mercado esteve cauteloso e resolveu tirar o pé do risco por conta da apreciação da constitucionalidade da reforma”, disse Pedro Paulo Silveira, da Nova Futura Corretora. Para ele, a percepção do cenário político é de que há uma ladeira a ser superada, mas governo e parlamentares ainda estão discutindo se é mesmo uma ladeira. “O problema é saber quanto tempo levará até que se chegue ao topo”, disse.A votação do parecer sobre do deputado Marcelo Freitas (PSL-MG) foi adiada para terça-feira da semana que vem para que fossem avaliadas as sugestões de mudanças. Após reunião de parlamentares com o secretário especial de Previdência do Ministério da Economia, Rogério Marinho, o governo aceitou negociar alteraçõesna CCJ.“O mercado segue convicto de que haverá reforma da Previdência, mas há reações negativas sempre que aumentam as dúvidas sobre ela. O grande X da questão é qual reforma passará no Congresso e quando ela será aprovada”, disse Luiz Roberto Monteiro, operador da Renascença Corretora. Dólar

No mercado de câmbio, os mesmos temores de desidratação precoce da reforma da Previdência e de uma tramitação lenta demais no Congresso influenciaram o dia e provocaram uma corrida ao dólar ontem. Como a liquidez no pregão de hoje deve ser bastante reduzida por causa do feriado de amanhã, os investidores preferiram adotar uma postura defensiva e zerar posições vendidas na moeda americana. Afora uma leve queda no início dos negócios, na esteira de valorização de divisas emergentes após dados positivos da economia chinesa, o dólar passou o dia todo em alta e encerrou com valorização de 0,85%, a R$ 3,9354 - maior valor desde 27 de março.O estopim para a corrida ao dólar foi o malogro na votação da admissibilidade do parecer do relator da PEC na Comissão e Justiça da Câmara (CCJ) da Câmara, após a oposição e partidos do Centrão demandarem retirada do texto de pontos não ligados diretamente à Previdência, como o fim da multa do FGTS para quem já é aposentado, a possibilidade de alterar a idade máxima dos ministros do Supremo Tribunal (STF) Federal por meio de lei complementar, a restrição ao abono salarial e a prerrogativa de apenas o Executivo alterar regras do sistema previdenciário. A expectativa é que seja possível costurar um acordo para reformulação do parecer até terça-feira, quando está marcada a próxima reunião da CCJ. Em tese, já seria possível votar a admissibilidade da PEC. Um gestor de recursos de uma independente disse que o amadorismo do governo na articulação política assusta os investidores e leva à percepção de que a economia com a reforma ficará muito aquém do R$ 1 trilhão em dez anos almejado pelo mnistro da Economia, Paulo Guedes. Para o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, se houver a aprovação na CCJ na semana que vem, deve haver também um alívio no câmbio, com o dólar voltando a patamares abaixo dos R$ 3,90. “O mercado já não dá mais o benefício da dúvida ao governo. Todo mundo acredita que a reforma vai sair, mas qualquer sobressalto já leva os agentes para posições mais defensivas”, disse Galhardo. A preponderância do componente doméstico na alta do dólar ontem foi bastante clara, já que a moeda americana perdeu força em relação a todas as divisas emergentes e de exportadores de commodities após os dados positivos da economia chinesa mitigarem temores de uma desaceleração da economia mundial. O PIB chinês cresceu 6,4% no primeiro trimestre, acima do esperado por analistas. (Do Estadão Conteúdo)