Publicado 18 de Abril de 2019 - 5h30

Não são os meus olhos que vêm coisas bonitas; as coisas bonitas é que são belas. Não sei se foi alguém que escreveu isto ou se foi eu mesmo, em alguma velha madruga poética. Mas esta frase ressoou em meus ouvidos agora, quando lembrei de ter ouvido alguém reclamar da sua madrasta vida, fato de muitos anos atrás. Era um bom conhecido de bar, sempre aparecendo para o aperitivo da janta, com o corpo cansado e suado, camisa amarrada na cintura, calças manchadas de tinta e com fala mansa. Era um trabalhador como todos que lá estavam, buscando um pouco de sossego no jogar da conversa fora na mesa de sinuca e no mistério do truco — um jogo que jamais entenderei, apesar da insistente paciência dos amigos...

O bom conhecido comentava que a vida com a companheira era muito boa, mas que tinha um cunhado que, vez ou outra, aparecia em sua casa para passar uns tempos. Dizia que era a trabalho. Mas levantava e dormia tarde; boca de draga, que devorava todo o arroz com feijão e a mistura do almoço e da janta.

A reclamação do bom conhecido fazia sentido. Num barzinho que ficava na esquina da sua casa, um pouco mais longe das botas de Judas, sua mulher aparecia para saber quando ele voltaria para casa. Não, a bronca não era com a sua companheira, afinal, tudo o que ela queria saber era a hora exata de lhe servir a janta; para depois se fazer namorada perfumada. Chateação mesmo era com o seu cunhado, um esfomeado, que chegava no bar dizendo que estava na hora da janta, numa dissimulação sem tamanho. E tomava uma por conta do cunhado.

O bom conhecido contou o seu drama familiar, dizendo que estava com vontade de largar a mulher, os filhos e até mesmo a casa que eles tinham construído com tanta penúria. Outros bons amigos, todos casados com mulheres e cunhados, ficavam do seu lado, em solidário apoio, e todos contavam um pouco de suas tragédias suburbanas.

E por algum tempo, não sei precisar quanto, fiquei pensando nas minhas tragédias. E não achei uma que fosse. E fiquei pensando se realmente, até então, eu tinha vivido alguma vida. E uma náusea de vergonha nasceu nas minhas vísceras como a avisar que eu não tinha direito de estar ali, naquela assembleia de bar, a ouvir de homens corajosos suas sagas suburbanas. E quando um deles me perguntou, menti. Respondi que a minha vida sempre tinha sido um caminho de infelicidade - mentira boba que me fez sentir como o apóstolo Pedro, que negou por três vezes conhecer o seu Mestre. E pedi a conta, envergonhado por negar os muitos momentos que tive de felicidade.

Ainda antes de sair, ouvi o mais velho cliente do bar receitar uma dica de companheirismo e paixão, explicando que um homem jamais deve deixar de levar para casa uma flor para a sua companheira, nem que fosse uma margaridinha do mato. Naquela noite, cheguei na casa da minha namorada com uma flor. A primeira. E nunca mais deixei de dizer, a quem quer que fosse, que eu sou um homem feliz. Mas devo confessar que eu não tinha cunhado.

Tantos anos depois, duas viuvez, três filhos e dois enteados, além de oito netos, agradeço por ter encontrado uma nova companheira a quem costumo levar flores que me chamam a atenção em gôndolas de supermercados. E elas ficam brilhando pela casa assim como iluminam os olhos da moça que manda em mim.

Duas dúzias de ovos vazios a companheira vem guardando para serem pintados em homenagem ao Dia da Páscoa. Marmanjos e crianças pintarão as cascas e farão os enfeites da mesa pascal da casa; e assim o Homem Ressuscitado renascerá em nossa mesa enfeitada com o sabor da fé e da cristandade. E será assim com toda a fé dos crentes e descrentes que novamente a Catedral de Notre Dame será reerguida para nos explicar que tudo tem um fim e um novo recomeço.

E tudo que desejo ao raro leitor é que jamais lhe falte uma flor para dar a sua companheira e, mais que isso, que jamais deixe de acreditar na fé natural dos homens de boa vontade. Pois é disso que andamos precisando cada vez mais. E que a paz esteja com todos nós.

Bom dia.