Publicado 17 de Abril de 2019 - 17h10

Por AFP

Para preencher o vazio e "repovoar" uma aldeia, uma japonesa muito habilidosa fez inúmeros bonecos. E agora eles são vistos sentados com seus livros em uma escola fechada, alinhados na rua... Em todos os lugares de uma aldeia carente de moradores.Nagoro é uma aldeia montanhosa do oeste do Japão, a mais de 500 km da capital. Um povoado que teria caído no esquecimento se não fosse pela imaginação de Tsukimi Ayano, que foi colocando criaturas do tamanho de pessoas aqui e ali para afastar a solidão."Somos apenas 24 pessoas vivendo aqui, e os bonecos, 10 vezes mais: são cerca de 270", explica esta habitante de 69 anos que vive sozinha com seu pai.A escola fechou há sete anos pela falta de professores, lembra. "Agora já não há crianças. A pessoa mais jovem da aldeia tem 55 anos".Em frente a uma loja abandonada, uma "família" espera, muito agasalhada, neste dia frio de março. E perto do ponto de ônibus, um "pai" arrasta um carrinho cheio de "crianças".- Pedaços de pau, jornais e lã -Há 16 anos Ayano colocou na horta um espantalho vestido com a roupa de seu pai. "Uma pessoa que passou por ali acreditou que era ele e o cumprimentou, foi divertido", lembra.Desde então ela não parou de criar bonecos. Usa pedaços de pau e jornais para fazer o corpo, tecido elástico para o rosto e lã para o cabelo. Como toque final, pinta de rosa os lábios e as bochechas.Quando Ayano era criança, Nagoro contava com cerca de 300 pessoas, tanto residentes como trabalhadores do setor florestal e da construção de represas."Pouco a pouco as pessoas foram indo embora. Agora você se sente sozinho", declara Tsukimi Ayano. "Fiz bonecas, algumas vezes, para me lembrar de quando a aldeia era animada".Este caso é emblemático do mal da terceira economia mundial, que enfrenta um rápido declínio demográfico em um contexto de baixa taxa de natalidade.- Êxodo rural -Como Nagoro, cerca de 40% dos aproximadamente 1.700 municípios do Japão sofrem despovoamento.O arquipélago envelhece lentamente. Em breve será o país com a população mais velha do mundo, o que significa que 28% dos habitantes terão ao menos 65 anos. Serão quase 40% em 2050.Nesse ano a população haverá diminuído dos 127 milhões atuais para 100 milhões.Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos povoados japoneses viviam da silvicultura e da agricultura mas os jovens começaram a ir embora das aldeias nos anos 1960. "A economia era florescente em Tóquio e nas regiões industriais de então. Ali se podia ganhar dinheiro", afirma Takumi Fujinami, economista do Instituto de Pesquisa do Japão.O fenômeno continuou durante os últimos anos apesar da promessa do primeiro-ministro, Shinzo Abe, de revitalizar as regiões. "Fazer a população voltar é muito difícil", afirma o especialista. Dar ajudas para atrair pessoas não é suficiente."Antes de nada é importante subir os rendimentos ou melhorar as condições trabalhistas daqueles que vivem nas zonas rurais", estima.Na falta de habitantes, as bonecas de Nagoro atraem os turistas de carne e osso. Alguns procedem dos Estados Unidos ou da Europa."Antes de eu começar a fabricar estas criaturas, ninguém parava aqui", afirma Ayano com um sorriso. "Não sei como será Nagoro dentro de 10 ou 20 anos, mas continuarei fabricando bonecas".nf-anb/kap/uh/ak/erl/mb/db

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