Publicado 27 de Março de 2019 - 18h00

Por Adagoberto F. Baptista

Francisco Lima Neto

Da Agência Anhanguera

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Campinas já registra 106 acidentes com escorpiões em 2019

A cidade de Campinas já registra 106 acidentes com escorpiões neste ano. O número alcançado nesse primeiro trimestre corresponde a 32,51% do total registrado em 2018, quando foram contabilizados 326 casos. Ao longo de 2017, foram 190. O que demonstra que os acidentes vêm aumentando ano a ano.

A dona de casa Rosanea Terra, 55, moradora da Vila Lemos, sofre há tempos com o problema. "Moro aqui desde 2016 e sempre aparece. Aparece no meu quintal e no banheiro. Os vizinhos me contaram que outros moradores saíram dessa casa por causa dos escorpiões", conta.

"Nossa mãe, eu morro de medo porque tenho três crianças. Uma de 3, uma de 7 eoutra de 11 anos. A gente ouve que adulto até aguenta a picada, mas as crianças não", diz.

De acordo com ela, na região tem muito lixo e entulho acumulado. "Colocamos tela em tudo. Os ralos ficam fechados. Paramos de jogar água no quintal porque disseram que eles gostam de lugar úmido", revela.

A professora Bruna Botias, 36, que mora em um condomínio de apartamentos, na região do Parque Prado, também enfrenta o problema. "Já encontrei vários e os vizinhos também. Eu fechei todos os ralos, até tomada, os lustres são bem fixados no teto. Já tenho um protetor fixo nas portas. Onde passam os cabos da televisão, tudo que é buraquinho eu vedei", relata.

A projetista Regiane Taveira da Costa, 45, moradora de um condomínio no São Bernardo, já encontrou cinco escorpiões em seu apartamento. "Tampei todos os ralos, box, pias, telas, coloquei protetor nas portas, comprei veneno, mas tem que aplicar bem perto. É perigoso", alerta.

Ela conta que entrou em contato com a prefeitura e tomou todas as medidas solicitadas pela Vigilância Sanitária. "A informação é que é uma epidemia e eles não tem pouco carro e poucos funcionários para ir em todas as regiões", reclama.

Hellen Cristina silva, 35, dona de casa, diz que na sua casa, no Núcleo Residencial Jossiara, os aracnídeos sempre marcam presença. "Eles aparecem mais à noite. No quintal, na garagem, perto da porta. Eu tenho criança e fico com medo. To sempre procurando. Já acionamos a Vigilância Sanitária, mas nunca aparecem", reclama.

Vigilância orienta

A coordenadora da Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ) de Campinas, Elen Fagundes, confirma o aumento da incidência do aracnídeo. "A gente tem registrado o aumento de ocorrências de encontro de escorpião, não apenas em Campinas. Isso tem se mostrado no cenário nacional", aponta.

O escorpião amarelo está altamente adaptado às condições urbanas, principalmente, à rede de esgoto e pluvial. "Como está muito adaptado e tem oferta de alimento importante - a barata-, nas galerias de esgoto, tem possibilidade maior de acessar o interior dos imóveis", explica.

A coordenadora explica que quando a unidade é procurada, os moradores são orientados sobre a forma de vedar as frestas, portas, ralos, tomadas, e até lustres, inclusive com material explicativo enviado por e-mail ou aplicativo de mensagens. Caso essas medidas não surtam efeito é preciso avaliar o entorno, como terrenos vizinhos. Se mesmo assim os escorpiões continuarem aparecendo aí uma equipe da vigilância vai ao local analisar a situação junto com os moradores.

"Nosso papel é orientar adequadamente as pessoas. O material é muito propício para atender essa finalidade e fazer a informação correta chegar às pessoas", ressalta Elen.

O material pode ser verificado no link http://www.campinas.sp.gov.br/escorpiao

Segundo Gustavo Schmidt, professor de ciências biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, algumas estações do ano são mais propícias para o aparecimento do escorpião. "Eles ficam mais ativos com o calor, e as chuvas contribuem desalojando esses animais de suas tocas. Escorpiões não são insetos, e sim artrópodes aracnídeos, o que explica a sua relativa resistência a inseticidas", aponta.

De acordo com o professor, eles habitam o planeta há centenas de milhões de anos. No Brasil, temos duas espécies extremamente venenosas, o Tityus serrulatus (escorpião-amarelo) e o Tityus bahiensis (escorpião-marrom). Ambos são comuns na região sudeste e ocorrem em São Paulo.

O veneno é neurotóxico, afetando o sistema nervoso, causando muita dor. "O quadro clínico do envenenamento pode variar, pois depende de diversos fatores como a espécie do escorpião, a quantidade de veneno inoculado, a idade e a massa corpórea da vítima, sendo crianças e idosos, o grupo mais vulnerável", diz.

Quadro: Dicas para evitar o aparecimento e proliferação de escorpiões:

- Manter a tampa dos ralos internos na posição fechada;

- Colocar telas milimétricas nos ralos na área externa;

- Vedar frestas nos muros, paredes e pisos;

- Vedar a soleira das portas com rodinho ou rolinhos de areia;

- Não acumular entulho ou materiais de construção;

- Verificar se os espelhos de luz e pontos de fiação elétrica não apresentam frestas e vãos;

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- Manter o ambiente limpo; acondicionando o lixo em recipientes fechados; manter a limpeza de jardins, sem acúmulo de folhas; providenciar a limpeza e corte do mato em terrenos;

Quadro: Veja como evitar acidentes

- Examinar roupas e calçados antes de usá-los;

- Manter cama, sofás, berços afastados da parede;

- Manter lençóis, cobertores, cortinas sem contato direto com o chão;

Fonte: Fonte: Gustavo Schmidt, professor de ciências biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Procura surpreende

Durante a produção desta reportagem, o Correio Popular divulgou o assunto em uma de suas redes sociais. A equipe recebeu uma enxurrada de contatos de moradores de várias regiões de Campinas contando sobre a freqüência com que têm encontrado o aracnídeo em suas casas. Alguns ainda guardam alguns animais mortos em vidros para comprovar a situação. O número de comentários e ligações para a redação para pedir ajuda para o problema surpreendeu.

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista