Publicado 21 de Março de 2019 - 11h43

Por Rogério Verzignasse

Imagens salvas pelo Leandro Torres na pasta Báu mostram o inventor Hércules Florence em foto de época, e a reprodução de diversos desenhos assinados por ele na Expedição Langsdorf: índios, cachoeiras. Rios. E até a partida da expedição, em Porto Feliz. Dá ´pra fazer um álbum

Águas, índios e onças na rota do gênio

Há 140 anos, Campinas sepultava Hércules Florence, pioneiro da fotografia

Face aventureira

do inventor ainda

é desconhecida

Há 140 anos – mais precisamente no dia 27 de março de 1879 – a família e os amigos íntimos sepultavam o corpo de Antoine Hercule Romuald Florence. Francês de nascimento – e aqui por Campinas conhecido como Hércules Florence –, o cidadão foi um dos pioneiros da fotografia no mundo.

Bem antes que o francês Daguerre ou o inglês Talbot com seus inventos registrados e reconhecidos – Florence desenvolveu técnicas para fixação de imagem trabalhando em um laboratório improvisado em casa, ali na atual Rua Barão de Jaguara, bem de frente a Praça Bento Quirino.

Sem apoio algum para investir em pesquisa, Florence por muito tempo foi ignorado pela comunidade científica mundial. Ele mesmo reclamou demais de não ter reconhecimento algum por aqui.

O fato é que o rapaz era fora de série. E muito mais que um inventor. Muitos campineiros das novas gerações, aliás, não sabem dizer quem foi e o que fez o gênio. E ele nem é tema de aulas de história na rede.

Florence foi um aventureiro. Como poucos. Com apenas 16 anos, por exemplo, ele trabalhou como grumete: ajudava marinheiros na limpeza de navios, mundo afora. Por conta disso aportou no Brasil, e nunca mais saiu daqui.

No Rio, ele ganhou a vida como caixeiro, balconista, livreiro, tipógrafo. E dava show no que mais gostava de fazer: desenhar.

A expedição

O talento lhe rendeu um contrato de trabalho espetacular. Por meio de um anúncio no jornal, ele ficou sabendo de uma expedição científica que precisava de desenhistas para documentar a viagem. Eles precisavam de um relato ilustrado dos rincões mais afastados do Brasil.

A expedição foi organizada por um naturalista alemão, o Barão Georg Heinrich von Langsdorf, pantanal e Amazônia adentro.

Entre 1825 e 1829, os pesquisadores percorreram 13 mil quilômetros de chão. E a documentação iconográfica detalhou rostos, roupas, rios, cascatas, plantas, animais. O trabalho, de rigor científico, por décadas e décadas orientou o trabalho de antropológos e etnógrafos. O Brasil das águas, dos índios e das onças era apresentado ao planeta.

A luz

De volta a Campinas, Florence não deixou de ser artista. E se dedicou a encontrar uma maneira inventiva de impressão e gravura de seus estudos. Para ganhar a vida, naquele tempo, ele trabalhava como balconista de uma loja. E foi lá que ele se meteu em uma nova – e mais importante – aventura.

Notou que os tecidos expostos à luz do sol desbotavam. E conheceu as propriedades do nitrato de prata nas conversas com um grande amigo, o boticário Joaquim Correia de Melo.

Pronto. Curioso, desenvolveu a técnica inédita de fixação da imagem com a ajuda da luz, usando uma câmera escura. Produziu a fotografia antes de todo mundo. Mas não tinha dinheiro para aprimorar o invento, nem a ajuda de quem o divulgasse.

Os resultados das pesquisas do francês Daguerre, por exemplo, foram publicadas depois. A diferença é que Daguerre morava em Paris. Cidade onde os jornais eram fortes, onde se investia em pesquisa e educação, onde os cientistas se encontravam.

A contribuição de Florence, por conta disso, foi relegada ao esquecimento, até que a descoberta de alfarrábios manuscritos, quase um século depois, detalharam o invento que brotou na salinha da atual Barão de Jaguara. A notícia correu o mundo, e a comunidade científica reconheceu o pioneirismo do inventor.

A FRASE

“Estou certo que, se estivesse em Paris, um único de meus descobrimentos poderia suavizar-me a sorte e ser útil a sociedade. Lá, talvez não me faltassem pessoas que me ouviriam. Estou certo de que o público, o verdadeiro protetor dos talentos, me compensaria de meus sacrifícios”.

HÉRCULES FLORENCE

Anotação coletada de escritos pessoais

RETRANCA

Se até hoje os campineiros ainda devem aplausos ao inventor, lá fora a situação é bem diferente. A reverência a Hércules Florence é explícita em produções de filmes e audiovisuais exibidos por conglomerados gigantescos da comunicação da Europa e dos Estados Unidos.

O documentário Hércules Florence – No caminho da Expedição Langfsdorf já foi exibido pela BBC de Londres e pelo Discovery Channel, por exemplo.

A produção, que escancara o gênio inventivo do cidadão, teve a direção de Maurício Dias e o roteiro do inglês Steve Bowles. A protagonista do documentário é Adriana Florence, tataraneta de Hércules, que hoje preserva no próprio ateliê de artes, na Capital, documentos e ilustrações do ancestral famoso.

Procurada pela reportagem do Correio, Adriana contou que participou do documentário nos anos que antecediam as comemorações pelos 500 anos do Brasil. Depois de 174 anos, ela refez parte do roteiro do tataravô inventor, navegando 6 mil quilômetros de rios brasileiros, ao lado da equipe de cinema.

A nova expedição – um sonho acalentado ao longo de oito anos - rendeu um filme e um livro. Ao longo da década seguinte, a produção se tornou matéria de destaque em emissoras brasileiras de TV no Brasil e no planeta todo.

BOX

Hércules Florence – No caminho da Expedição Langfsdorf

tem sido exibido no Brasil nos canais pagos da BBC, reprisado com frequência. Vale conferir a grade de programação e conferir a produção primorosa. O livro escrito por Adriana, "No Caminho da Expedição Langsdorff - Memória das águas", indicado ao Prêmio Jabuti, pode ser encomendado pelo telefone (11) 3875- 7360 ou mensagem in box. O contato com a artista pode ser feito pelo WhatsApp (11) 96336-0935

BOX II

Uma outra importante obra sobre a carreira do inventor - O viajante Hércules Florence – Águas, Guanás e Guaranás - escrito por Dayz Peixoto Fonseca, também é uma fonte obrigatória de informações para pessoas interessas sobre a história da Expedição Langsdorf. O livro conta com cem gravuras sobre a paisagem brasileira e sua gente, assinados pelo desenhista. A obra pode ser adquirida por meio das páginas virtuais das livrarias e tem um preço médio de R$ 50,00.

Escrito por:

Rogério Verzignasse