Publicado 27 de Março de 2019 - 19h05

Outra noite sonhei que respirava embaixo d'água. Foi uma sensação maravilhosa, como se poderia imaginar. Apesar de toda a pressão e densidade que há nela, eu respirava. Ainda mais que isto: movia-me também com bastante facilidade, como se estivesse num meio sem atrito.

Quando acordei, provei a sensação de liberdade que havia vivido no sonho. E acordada, em minha livre associação, a palavra “água” foi substituída por “vida”: a sensação de liberdade, apesar de toda a pressão, densidade e atrito que há nela. Lembrei-me das coisas que eu tinha pendentes: o doutorado, os artigos por escrever, as leituras por fazer. As pessoas por ver. Quanta coisa e mais, a ver. Ou, “haver”, como escrevia o senhor ‘do xerox’ quando eu deixava algum crédito para as próximas fotocópias anos atrás.

Haver, a ver, quanta coisa há. Vamos indo num mar delas. Como aquelas enchentes que vão levando objetos, embalagens, plantas, boiando enquanto passam à velocidade das correntezas. As pessoas que se salvam, geralmente seguram-se em algum lugar – não vão junto dos entulhos; sabe-se lá onde vão dar. Outras não aguentando, se soltam e vão junto, deixando-se levar.

Claro que em alguma medida, sempre arrastamos algumas coisas: sempre há algo (ou muita coisa) pendente. Creio que o problema é quando há demais: quando se torna um rio de coisas (nossas) que são levadas pela vida. E o que é pior: nem sempre visíveis. Há as correntezas internas, mais profundas e invisíveis.

Penso em relacionamentos que são de alguma maneira arrastados; ou trabalhos, ou qualquer outro pacto: leva-se, por outros benefícios, por medo, por conveniência. Cada um faz, conscientemente ou não, seu balanço interno. O que vale mais a pena, o que não. A crise se instala quando essa conta interna não faz mais sentido, ou traz mais sofrimento do que vida. E a crise poder se instalar, é algo bastante positivo a meu ver: propicia o sentir, o pensar. Quem sabe, até o mudar, aos poucos.

Pois difícil é quando nem sequer tem-se acesso a este estado de coisas: levar-se ou deixar-se levar por esta correnteza, sem sequer pensar, sentir, questionar-se. Certo estado mórbido de vida interna.

Outro dia alguém me falava de árvores assim: que por fora parecem vivas, chegam até a ter folhas; mas por dentro, estão mortas. Desta maneira tornam-se perigosas porque podem cair a qualquer instante: uma morte não anunciada e repentina. Como vemos muito também nos humanos: os infartos, os AVCs fatais e outras tantas causas mais.

Sabe-se lá por que algumas árvores se fazem de vivas e estão mortas por dentro (meu irmão botânico deve saber). Mas em humanos, que acompanho mais de perto, encontramos diversas razões.

Lembro-me do filme que assisti recentemente e que transitou pelas opções do Oscar: A Esposa (Bjorn Runge, 2017). A presença da mentira no seio de um casal: ela escrevia, ele levava o crédito. Parece ter dado frutos ao longo de uma vida para ambos: filhos, família, publicações. Mas, como ‘folhas externas de árvores mortas’, por dentro havia uma grande mentira: um tronco mortífero. Não revelarei o final deste bom filme que recomendo, somente dizer que culmina no momento em que um do casal, não sustenta mais o pacto mentiroso/mortífero. Aí há a possibilidade de crise, e de mudança.

Arejar a própria casa interna, fazer contato com cada ‘objeto nosso’, com os sentimentos, desejos, projetos de vida, com o que foi e não possível, com o futuro – tudo isto não é tarefa fácil. Na teoria, nas linhas de um texto sim. Vou dizer do que sei: um processo de análise (terapia) pode ajudar, e muito, no correr deste rio. Nela tem-se a possibilidade de voltar-se para si, o próprio olhar; as coisas do mundo fora nos distraem muito. Um rio passando à velocidade da correnteza rouba nossa quase total atenção. E assim a vida vai passando.

Pois outro dia também me peguei pensando o quanto gastamos (energia, dinheiro e tempo) com a simples manutenção de nossas vidas: “mantemos” as coisas. Claro, a vida requer manutenção constante: mantemos o trabalho, mantemos um relacionamento, mantemos um carro, uma casa. A metáfora vale para nossa vida interna: o quanto gastamos em nossa própria manutenção, mantendo as coisas como estão. Minimamente criamos: um pensamento novo, uma experiência nova, um espaço novo - dentro e fora de nós. É bonito as pessoas que criam; para quem a manutenção não é o bastante. Criam a vida, as trocas, o amor, criam novos espaços – internos e externos.

Fazer deste rio uma vida e não somente uma manutenção, torna-se o desafio maior. Felizes os que conseguem (não sem custo) mudar o fluxo desta correnteza sem perder na fertilidade e criatividade de suas vidas; que se entregam a uma viagem – mergulho – de conhecerem a si mesmos, a nível mais profundo (sigo na metáfora da água, do rio, do oceano). Todos temos lençóis subterrâneos.

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”, deduziu Oscar Wilde. Talvez. Mas sei que muitas, ainda bem, ainda assim buscam viver.