Publicado 20 de Fevereiro de 2019 - 19h22

Por Adagoberto F. Baptista

Francisco Lima Neto

Da Agência Anhanguera

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Fotos: Matheus

IAC e IB alertam sobre aumento da ferrugem no café

Sem mapeamento da lavoura e aplicação de defensivos, as perdas na produção podem atingir 50%

O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Instituto Biológico (IB), ambos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, alertam os cafeicultores paulistas sobre a antecipação dos danos causados pela ferrugem na safra 2018-2019. Esta, que a principal doença dessa cultura, está amplamente distribuída em todas as regiões do País e podem derrubar a produção em até 50%. A ferrugem forma manchas amareladas na parte de baixo das folhas, que caem. A planta fica debilitada e não consegue formar os botões florais da safra seguinte, reduzindo a produção.

Segundo a pesquisadora Angelica Prela Pantano, do IAC, a ferrugem dependente do clima para se desenvolver e a epidemia pode variar em cada região onde há o cultivo. “Este ano a doença está muito agressiva em função do clima que tem altas temperaturas e chuvas desuniformes. Foi muita chuva em novembro e pouca em dezembro, quando esquentou muito”, comenta Angelica sobre as condições que favorecem a disseminação da ferrugem, causada pelo fungo Hemileia vastatrix.

Normalmente, há maior incidência de chuvas em dezembro e janeiro. Neste ano, os volumes de janeiro foram inferiores aos esperados. Em alguns locais como Franca, Mococa e Caconde, o volume esperado era de 281 mm, 275 mm e 247 mm e foram registrados cerca de 65,5 mm, 105,2 mm e 45,3 mm, respectivamente. No ano anterior, nesse mesmo mês, a precipitação pluviométrica registrada foi de 193 mm, em Franca, e de 250 mm em Mococa e Caconde. “Em Campinas, o volume registrado de 225 mm foi pouco abaixo do esperado, que era em torno de 240 mm, porém em todos os locais citados, as temperaturas médias mínimas foram acima da média histórica, o que favorece a doença”, diz Angélica.

De acordo com a pesquisadora do IAC, Masako Toma Braghini, conhecida como Mako, a ferrugem precisa temperaturas amenas, em torno de 23° graus e água, principalmente a umidade da manhã, para se desenvolver. Ela explica que a ferrugem começa a aparecer entre novembro e dezembro, mas por conta do clima desfavorável ela apareceu de forma mais tardia. "Quando é tardia, o pico também vai mais para frente. A temperatura estava muito alta e com pouca umidade. Agora com a umidade alta e as temperaturas mais amenas, as condições de ferrugem vão favorecer e vai começar a crescer", afirma.

Segundo a pesquisadora do IB, Flávia Rodrigues Alves Patrício, a epidemia de ferrugem, em geral, inicia-se em dezembro, e pode se manifestar até o inverno, quando a temperatura começa a cair.

O alerta vale para as plantas que são suscetíveis a ferrugem e não às que são resistentes. As mais plantadas no Brasil são justamente as que são suscetíveis. A Catuaí, amarelo ou vermelho, que é de porte baixo, e a Mundo Novo, que é de porte alto.

De acordo com a pesquisadora do IB, Flávia Rodrigues Alves Patrício, a epidemia de ferrugem, em geral, inicia-se em dezembro, e pode se manifestar até o inverno, quando a temperatura começa a cair.

Os pesquisadores do IAC e IB fazem avaliações de campo mensalmente nas regiões de Campinas, Mococa, Caconde e Franca. Ainda em janeiro, observaram que em alguns locais a doença já havia atingido o nível aceitável e era necessário iniciar o controle químico. Essa necessidade pode aumentar os custos da produção porque requer mais pulverizações. “Tem produtores que, para economizar, esperam atingir o nível aceitável, para então dar início às pulverizações”, conta a pesquisadora do IAC.

Os níveis aceitáveis da doença na planta é em torno de 3% a 5% da lavoura. Mas é preciso cuidado, pois o ciclo dela leva cerca de um mês. Antes disso, ela já está na folha, mas ainda não aparece.

Nos levantamentos realizados na safra de 2018-2019, causam preocupação as elevadas incidências de ferrugem já em janeiro nas regiões de Campinas, Franca e Caconde. Foi observada a doença, nas áreas sem tratamento, em 44,4% das plantas da cultivar Catuaí, em Campinas, em 32% da cultivar Mundo Novo, em Franca, em de 33% e 53% nas cultivares Catuaí e Mundo Novo, respectivamente, em Caconde. “Apenas em Mococa, região mais quente que as demais, as folhas com ferrugem encontradas em novembro caíram e a ferrugem ainda não está ocorrendo nas áreas sem tratamento”, afirma Flávia.

Por ser composta por um pó, a ferrugem tem fácil disseminação por vento e umidade. “A folha doente cai no chão e o fungo permanece vivo; ao nascer uma nova folha ela já é contaminada”, explica a pesquisadora do IAC. A ferrugem ataca somente as folhas, não incide sobre os frutos, mas ao causar a desfolha, compromete a safra do ano seguinte. Isso porque a planta gasta sua energia para fazer o novo enfolhamento, recurso este que deveria ser usado para a produção de fruto. “Assim, não terá fruto, por isso o prejuízo acontece na próxima safra”, resume Angélica.

As pesquisas mostram que sem o tratamento preventivo, a incidência da ferrugem aumenta. “Sobra inóculo para o próximo ano e causa a desfolha da planta”, diz Angélica.

Desde 2016, uma equipe formada por pesquisadores do Instituto Agronômico, Instituto Biológico, Embrapa Café e produtores rurais de Franca e Caconde realizam levantamentos em Franca, Caconde, Mococa e Campinas para estudar a relação entre a ocorrência de doenças e pragas e o clima do período analisado. Nesses locais, pequenas áreas das lavouras são disponibilizadas para os levantamentos e permanecem sem tratamentos químicos contra doenças e pragas durante os experimentos.

Retranca: "Timing" correto para aplicação de fungicida é fundamental

O engenheiro agrônomo do IAC, Roberto Antonio Thomaziello, aponta que não basta fazer a aplicação do defensivo nas lavouras, é preciso monitoramento para aplicá-lo nos momentos corretos. De acordo com ele, o correto é fazer a primeira aplicação entre novembro e dezembro e a segunda em no máximo 60 dias. "A gente anda muito, faz muitas visitas, e o grande problema que eu vejo no campo é que o produtor às vezes não faz a aplicação no momento correto. Às vezes, espaça para fazer a segunda, passa de 60 dias. Não adianta fazer a aplicação correta, com o produto correto, com a dosagem correta se o indivíduo não faz no momento certo", explica.

Ainda de acordo com o engenheiro, em um ano de safra alta a planta fica mais suscetível à doença e é recomendado nem esperar os 60 dias para a segunda aplicação. "Pode antecipar um pouco e fazer com 45 dias para não correr o risco porque nessa época chove muito. Se você espera 60 dias, e a pressão da ferrugem está alta, começa a chover e tem que esperar a chuva passar para não lavar (o veneno das folhas)", aponta.

Quem fez a primeira aplicação do defensivo em dezembro, por exemplo, agora em fevereiro já deve ter terminado a segunda. "Essa é a orientação. E, provavelmente, tenha que fazer uma terceira aplicação. É preciso monitorar. Duas é o mínimo. Uma terceira depende do monitoramento que se faz. Hoje, em lavouras muito bem cuidadas você tem que fazer pelo menos três aplicações. É muito difícil hoje segurar com duas", comenta.

Thomaziello diz que já está aparecendo bastante ferrugem nas lavouras, por isso, o alerta dos institutos. "Veio um produtor aqui, da região do sul de Minas, e disse: vou começar a fazer a segunda aplicação. Eu falei para ele que já perdeu tempo. Já está atrasado. Já devia estar terminando a segunda porque já tem ferrugem", afirma.

Retranca: Doença surgiu no Brasil na década de 70

O engenheiro agrônomo do IAC explica que a doença chegou ao Brasil no ano de 1970 e foi detectado no Estado da Bahia. "No começo não tínhamos tecnologia de controle químico para ferrugem. O que tinha eram trabalhos aqui do Centro de Café, do Dr. Alcides Carvalho - que dá nome ao Centro - ele já tinha se antecipado que um dia a ferrugem iria ocorrer no Brasil. Foi uma visão fantástica de pesquisa. Já tinha a doença na áfrica", explica.

Ele aponta que há controvérsias como a doença chegou ao País, se foi alguma muda ou pirataria. "Mas a ferrugem é um esporo, vem pelo vento, corrente marítima pode trazer. Ele se antecipou e começou um trabalho de melhoramento de café com resistência à ferrugem", relata.

Por conta desses estudos pioneiros, hoje existem plantas que são resistentes às 17 raças do patógeno encontradas no Brasil. "Resistência não significa imune. Muitas vezes ela tem uma tolerância. Alguns materiais até o momento são totalmente resistentes às raças que estão aí, mas pode ser que essa resistência total num determinado momento possa ser quebrada por uma evolução, uma nova raça. Mas existe e se o produtor quiser plantar um material com resistência, isso diminui o custo porque não aplica o defensivo", conclui.

Frase

"Nós não queremos causar pânico, mas é um alerta de que é necessário fazer o monitoramento das lavouras e fazer as aplicações", Roberto Antonio Thomaziello, engenheiro agrônomo do IAC

"Se não monitorar e não fizer aplicação vai ter infestação alta no campo e não consegue mais controlar com nenhum veneno. Pode chegar até 50% de perda na produção, esse é o alerta". Masako Toma Braghini, pesquisadora do IAC.

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Adagoberto F. Baptista