Publicado 20 de Fevereiro de 2019 - 19h05

Fruto da pesquisa que desenvolve sobre memória, o ator e autor Clóvys Torres traz para Campinas seu mais recente espetáculo, Me Dá a Tua Mão, para curta temporada, sábado e domingo no Teatro Municipal José de Castro Mendes. Há anos, Torres pesquisa sobre memórias. O primeiro trabalho sobre isso, também solo encenado por ele entre 2000 e 2004, foi Maria Mucuta, em que Ella relembrava a sua vida à espera Dele. Na época, para criar a narrativa, o ator ouviu em torno de 500 pessoas, especialmente idosos, a respeito de suas memórias e alegrias e construiu o texto em sala de ensaio com muitas das memórias e sensações que tinha de seus avós.

Em Me Dá a Tua Mão o ator utiliza um acordeom e um berrante para apresentar uma narrativa que serve como detonador de memórias. “Meu foco é na narrativa. Anos depois de Maria Mucuta, em que Ella recordava sua vida, surge este velho contando histórias, relembrando as muitas perdas pessoais. O texto tem um caratér autobiográfico, mas amplia e envolve a história de uma família inteira pelo viés desse homem que vive no sertão, mas sonha com o mar”, explica Torres.

“À medida que as personagens revelam suas emoções, a plateia mergulha em suas memórias particulares e esta é a grande poesia do trabalho. Cada um imaginar suas próprias paisagens, suas emoções, a partir da provocação do narrador que desnuda momentos e personagens próximos a qualquer pessoa que estiver assistindo”, observa Torres.

Segundo ele, o trabalho de construção do texto e das cenas levou meses, foram feitos ensaios públicos e debates abertos desde o primeiro momento, passando por escolas, grupos de estudiosos, convidados ecléticos, sempre com bate papo, até fechar o texto e uma ideia de narrativa desta história a ser adaptada a qualquer espaço e formato, grande ou pequeno. “Moro num hotel. No processo chamava outros moradores para assistir. Construí a narrativa com o público. A Clarice Neskier viu uma cena e indicou o Amir Haddad para dirigir, ou “desconstruir””, coloca.

“O Amir fez uma desconstrução de tudo que eu estava fazendo, me provocando, me trazendo fortemente a questão da narrativa e do não teatro ou do “teatro depois do teatro”, como ele diz. Em resumo, a questão da verdade do ator, da entrega, da não representação. É um trabalho que não termina nunca, pois terá sempre provocações e desconstruções vindas do mestre Amir e da minha própria inquietude como ator-autor. Com a ajuda dele, a narrativa ficou mais clara, e o narrador com maior liberdade”, explica Torres. “Portanto, é uma peça que segue um fluxo de constante pesquisa e renovação e isso era o que eu desejava. Uma história que jamais estará pronta e sempre em constante evolução”, observa o ator, que faz questão de receber o público na entrada do teatro, para 'sentir' a plateia.

“Em cena, uso acordeom e um berrante, instrumentos ancestrais, e o palco vazio, apenas com uma cadeira. Atuo como uma espécie de menestrel, do teatro da palavra, para estimular a imaginação do público. Já me apresentei em palcos variados, feira de livros, hospitais, várias cidades. O público, apesar de diverso, foi sempre muito receptivo”, afirma Torres.

Para ele, “trata-se de mais uma história de amor. Uma narrativa que une o sertão ao mar. Um homem recebe visitas em sua casa enquanto a mulher dele, chamada Ella, pede sua mão insistentemente no quarto. A história deste casal revela as personagens de toda a família, seus amores, tristezas e sonhos.”

Segundo Torres, o encontro com Amir oferece um outro jeito de fazer teatro. “Para ele, o teatro é o lugar do ator, e propõe um exercício da liberdade”, observa, citando que a montagem junta dança, música e texto. “O palco aberto passa ainda a impressão de deserto, de solidão. “As cenas não são marcadas. E também mudo a ordem das cenas. Meu compromisso é com a narrativa, assim, o espetáculo nunca é o mesmo.”

O espetáculo estreou em São Paulo, em 1 de julho de 2017 e até hoje passou por 28 cidades brasileiras, além de Assuncion, no Paraguai. Em cartaz em São Paulo atualmente, cumprindo sua quinta temporada na Sala Orquidário do Café Pimenta Romã, o solo segue para os EUA em maio e depois para Portugal.