Publicado 21 de Fevereiro de 2019 - 5h30

Não restam dúvidas que a reforma da Previdência é o tema mais aguardado por todos que avaliam as consequências da economia no Brasil, sem que se ache um denominador comum para estancar o déficit de um sistema que tem comprometido o orçamento federal e ameaçado a estabilidade futura do País. Longe de ser uma unanimidade, a pretendida reforma é assunto complexo que foge ao entendimento da maioria, e por isto mesmo vem cercado de compreensível polêmica diante da possibilidade de se alterarem direitos consagrados popularmente e estabelecer uma nova ordem para as aposentadorias de trabalhadores e pagamento de pensões.

Ontem, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) fez a entrega solene do seu projeto de reforma ao Congresso, dando início a um esperado longo processo de avaliação e votação que pode ser decisivo para estabelecer um novo sistema sustentável. Concomitantemente, centrais sindicais articularam uma grande manifestação de protesto contra as mudanças cogitadas, abrindo o embate que se pode esperar para os próximos meses. Há, de todas as partes, sinais claros de radicalização e temor da repercussão popular negativa, o que deve determinar um rito de tramitação polêmico e confuso, onde não faltarão objeções e eventuais modificações no texto original proposto pela equipe econômica liderada por Paulo Guedes.

A urgência e oportunidade de se tratar este tema são inegáveis e caberá ao novo governo demonstrar firmeza nas negociações de forma a manter o máximo da proposta inicial. Resta saber se há real consistência para garantir o apoio político necessário. Para tanto, é fundamental que a equipe de governo demonstre capacidade de articulação para emplacar as mudanças, o que passa por um trabalho indispensável de esclarecimento da opinião pública esmiuçando cada etapa, uma ampla explanação do complexo tema, uma estratégia de comunicação eficaz para dirimir dúvidas e detalhar cada item da proposta. É preciso, antes de mais nada, que Bolsonaro abdique da prática de falar apenas a seus seguidores em redes sociais e canais de comunicação selecionados, abrindo um amplo leque de debate com toda a sociedade, abordando ponto a ponto do projeto, apresentando módulos de simulação para que todos possam ter a perfeita consciência do quanto seus direitos poderão ser afetados.

É preciso, ainda, sinalizar claramente como serão corrigidas as distorções no sistema que garantem privilégios a determinadas categorias, de forma a distribuir equitativamente a cota de sacrifício que se está pedindo a todos os brasileiros.