Publicado 21 de Fevereiro de 2019 - 5h30

Eu não tenho mais medo na vida. Só o de não mais conseguir ficar apaixonado. E como estou, não tenho medo nenhum da dengue, nem de assaltos, nem de sequestros ou qualquer outra coisa que assim se assemelhe. O que não significa que não estou indignado com a atual incompetência das autoridades responsáveis pela segurança pública.

Arrebenta-me o peito ver, todos os dias, a foto do nosso prefeito assassinado, com aquele seu sorriso franco em um painel aqui na redação; e quem será capaz de apagar a saudade que sempre sentirei, dos nossos bons tempos de conversa, de um pensar em nossos rios, na nossa cidade? E ele todos os dias, com o silêncio perenal de seus olhos, aparece ao lado dos números de pessoas assassinadas na cidade.

Estamos todos, pois, indignados com tamanha violência. E a violência não é apenas o bandido que nos assalta, nos mata, nos sequestra. Temos também a violência dos incompetentes políticos que nos dirigem. Jader Barbalho é um deles — e que reclama por ter sido algemado e, treze horas após a sua prisão — pela Polícia Federal! — ganhou novamente a liberdade. E prometeu processar o juiz que lhe decretou a prisão preventiva e o promotor federal que a pediu. Jader Barbalho está sendo acusado de ter participado de uma quadrilha que desviou cerca de um bilhão e oitocentos milhões de reais do Banpará e Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, recém-extinta). E continua solto por aí Esse dinheiro era para ajudar os pequenos e médios empresários da região amazônica, o que geraria emprego e, portanto, meios para que a pobreza da região diminuísse e, por outro lado, evitaria o surgimento da bandidagem adolescente.

No sul maravilha não é diferente. Bilhões e bilhões de dinheiro, ao longo das últimas décadas, foram nos tirado por empresários e políticos corruptos, os quais, covardes que são (a que ponto chegamos!), roubaram-nos com suas canetas. E se digo “a que ponto chegamos” é porque a bandidagem comum nos rouba com o trezoitão, correndo o risco de levar um tiro pelas costas. Pelo aí existe um certo ato de coragem. A que ponto chegamos...

A dengue hemorrágica, segundo a Funasa, Fundação Nacional da Saúde (é de morrer de rir), em mil novecentos e noventa e seis, disse ao presidente da República que precisaria de quatro bilhões e meio de reais para erradicar a dengue. O governo federal investiu apenas um bilhão e meio de reais, até o momento.

O que é violência?

Que a dengue, a malária, a tuberculose, o narcotráfico, o desemprego, a aids e o faz de conta da nossa justiça que nos expliquem. Acho que os espertos pastores tem razão: deve haver uma nuvem de demônios sobre as nossas cidades, incluindo eles próprios.

O amigo e confrade Antônio Contente, cronista do Correio Popular, em uma de suas antigas crônicas fez severas críticas (com as quais concordei) ao slogans que políticos adotaram para suas gestões, começando pelo “Brasil, um país de todos”, do Lula, e finalizando com o “Primeiro os que mais precisam”, do desaparecido ex-alcaide Hélio de Oliveira Santos. Mas, estranhamente, ele não citou o bordão político do saudoso Toninho da Costa Santos: “Governo democrático e popular”. E deram um tiro nele.

No ginásio, o meu professor de Educação, Moral e Cívica (o golpe de 64 já estava em vigor) pediu à classe um trabalho sobre o que significava a frase “Ordem e Progresso”. Nenhum aluno conseguiu escrever uma única linha. Recordo que, ao constatar as folhas em branco, ele meio que se desculpou com um “acho que fui um pouco além do que vocês poderiam entender”. E assim tascou um ponto a mais na média bimestral pra toda a classe; o que, é claro, nos impediu de perguntar se ele sabia algo a respeito. Ame ou deixe.

No bordão do Lula, o Brasil era um país de todos. Onde “todos” são aqueles que trabalhavam (e ainda trabalham) cinco meses por ano para pagar seus impostos, para a felicidade geral de uma minoria composta de políticos, empresários e banqueiros corruptos se locupletarem com o dinheiro público, tudo em nome da Ética, da Ordem e Progresso. Falta a Ética no bordão da bandeira nacional. Acho eu. É isso.

Bom dia.