Publicado 19 de Fevereiro de 2019 - 5h30

Certa vez, num aeroporto de um País da Europa, observando o comportamento de um turista, um amigo me disse: “aquele ali é brasileiro”. Como ele não usava sandálias havaianas, perguntei como sabia disso. “Veja — explicou — ele vinha caminhando a procura de algo e, quando chegou ao balcão da locadora de veículos que procurava, não hesitou em deixar o seu carrinho repleto de malas bem no meio do corredor, sem sequer cogitar que, com isso, iria dificultar a passagem de outras pessoas”.

E a cena se repete aqui com muita frequência. São os motoristas que conversam no celular enquanto dirigem, de modo que seguem ziguezagueando pelas ruas e avenidas, colocando em risco a vida de inúmeras pessoas. São, ainda, os pais e as mães que param em fila dupla enquanto esperam a filha ou o filho saírem do colégio. Ou, também, é o motorista que não avança no sinal verde porque precisou terminar de digitar e enviar — bem naquela hora — a mensagem de WhatsApp etc.

Essas atitudes, ainda que muitas vezes sejam justificadas por uma certa “espontaneidade” do brasileiro, no fundo tem uma causa perversa. Pouco se importa que outros também precisam passar, que se está travando o trânsito, ou colocando a vida própria e alheia em risco. Na verdade, nem se pensa nisso. O que importa é o que cada um precisa ou deseja de fazer. Os outros, que esperem... Isso tem um nome: egoísmo.

No caso de Brumadinho, ainda não há provas conclusivas de que tenha havido omissão ou negligência dos responsáveis, nem que isso tenha sido a causa do acidente. Aliás, triste repetição da catástrofe de Mariana! Seria aqui uma simples replicação daqueles gestos tão corriqueiros de descaso com a pessoa do próximo? Será que só nos damos conta dessa postura tão arraigada quando as consequências são terríveis, como ocorreram nessas tragédias?

Não seria correto concluir, a partir dessas considerações, que o brasileiro é egoísta e que, por esse motivo, o nosso trânsito é um dos mais violentos do mundo, que os desastres acontecem aqui com inaceitável frequência, muitas vezes como consequência do descaso perante milhares de famílias que vivem em situação de risco. Isso porque tal defeito não é exclusividade nossa. Ao contrário, faz-se muito encontradiço — ainda que com manifestações diversas — em qualquer local do planeta.

Noutros países, porém, considerados como mais desenvolvidos, há uma melhor educação, no sentido de respeitar as leis de trânsito e como se portar nos locais públicos de modo a se promover uma convivência harmônica com os demais. E, principalmente, uma maior preocupação do Poder Público e das pessoas incumbidas de atuar em atividades de risco em ser diligentes e rigorosas no cumprimento das normas de segurança.

Nunca gostei de comparações como a que fazemos agora, que levam a pensar que o que fazemos aqui é ruim e que, noutros locais - em especial na Europa Ocidental, na América do Norte e no Japão — tudo é bom e funciona magnificamente. O brasileiro em geral já tem uma baixa autoestima. E essa maneira de abordagem agrava esse problema. No entanto, temos de admitir que enfrentamos um problema crônico no que tange a ações efetivas de respeito à vida e à pessoa do próximo.

Por outro lado, porém, ninguém se iguala a nós em compaixão e afeto. É interessante notar como duas pessoas que sequer se conhecem, ao entabular uma breve conversa num transporte público, por exemplo, logo abrem suas vidas como se conhecessem há anos. Com efeito, somos verdadeiramente um povo que tem coração!

Ao conjugar essas duas tendências opostas, é um grande desafio dos nossos educadores, em especial os pais e professores, colocar o amor ao próximo também na inteligência e não apenas no coração. Com isso, seremos mais diligentes em pensar — e não apenas em sentir — sobre como as nossas ações, grandes ou pequenas, podem repercutir nas outras pessoas. Isso terá muitas implicações: o respeito às leis de trânsito; pensar e agir de modo a facilitar a vida dos demais num local público e; principalmente, a intransigente diligência e cuidado ao se promover a construção ou manutenção de obras que possam implicar risco à vida de outros seres humanos.