Publicado 19 de Fevereiro de 2019 - 2h00

Por Carlo Carcani Filho

Uma das maiores tragédias do esporte mundial aconteceu em abril de 1989, em Sheffield. O jogo entre Nottingham Forest e Liverpool, pela semifinal da Copa da Inglaterra, atraiu milhares de torcedores ao estádio Hillsborough. Seria apenas mais um espetáculo se uma série de fatores não tivesse provocado a morte de 96 pessoas.

Dias antes da partida, o responsável da polícia pela segurança nas partidas de futebol em Sheffield foi afastado do cargo. Em seu lugar assumiu um oficial sem nenhum conhecimento sobre futebol. Isso ficou claro em suas declarações sem sentido em uma entrevista antes da partida.

No dia do jogo, houve uma grande concentração de torcedores do Liverpool no único portão destinado a eles.

O comando do policiamento, por absoluta falta de informação e experiência, não soube lidar com o incidente. Deu ordens equivocadas, proibiu a entrada de torcedores e, minutos depois, durante a confusão formada do lado de fora, ordenou a abertura do portão. Milhares de torcedores entraram em um setor que já estava lotado e centenas foram prensados na grade que separava a arquibancada do gramado. Noventa e seis pessoas morreram por incompetência e falta de informação de quem deveria zelar pela segurança delas.

Ninguém morreu no domingo, na final da Taça Guanabara entre Fluminense e Vasco da Gama. Mas dirigentes dos dois clubes, da Federação e juízes desinformados e inconsequentes se esforçaram bastante para que um lamentável tumulto deixasse mais de 30 feridos.

Para começo de conversa, é inadmissível que os dois clubes e a Federação tenham sido incapazes de determinar em que cabeceira do Maracanã ficaria cada torcida. É muita incompetência.

Para manchar de vez a imagem do campeonato, a Justiça determinou que a partida fosse realizada com portões fechados. A decisão foi tomada quando mais de 30 mil ingressos já haviam sido vendidos às duas torcidas.

No dia da “grande final”, a bola começou a rolar com o Maracanã vazio. Mas os jogadores conseguiam ouvir rojões de torcedores concentrados do lado de fora.

Teve confronto com a polícia, depredação, pessoas feridas, crianças chorando e torcedores afirmando que nunca mais vão voltar ao Maracanã. Para evitar uma tragédia, a Justiça autorizou a abertura dos portões, já no final do primeiro tempo.

Tomar decisões importantes sobre um assunto que se ignora é uma irresponsabilidade enorme. Felizmente, só tivemos 31 feridos. Mas um dia chegaremos lá. O Brasil aparenta ter enorme potencial para matar por desleixo. 

Escrito por:

Carlo Carcani Filho