Publicado 25 de Janeiro de 2019 - 18h52

Por Daniel de Camargo

Daniel de Camargo

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FOTOS: MATHEUS PEREIRA

A Prefeitura de Campinas informou que já estão prontos os estudos técnicos para as obras de aprimoramento da macrodrenagem na região das avenidas Orosimbo Maia e Princesa D´Oeste. A intervenção da primeira área está orçada em mais de R$ 300 milhões, enquanto a outra aguarda uma atualização no valor. Ambas são pontos tradicionais de alagamento no município. Na última quinta-feira, um homem de 41 anos morreu afogado no Jardim Proença, após ser arrastado pela enxurrada, durante a tempestade que atingiu a cidade.

"Essas intervenções demandam grande investimento e a Administração Municipal tem tentado captar os recursos necessários junto aos governos Estadual e Federal, o que ainda não foi viabilizado em razão da forte crise econômica que atinge o Brasil há pelo menos cinco anos", diz trecho da nota. Para amenizar os riscos de inundações em Campinas, a Prefeitura mantém a limpeza e a manutenção dos córregos, inclusive do piscinão da Norte-Sul, onde desemboca o córrego Serafim. O reservatório, que tem 90 m², passou por desassoreamento em agosto de 2018. A ação permitiu aumentar a capacidade de contenção de água de 130 mil para 270 mil litros, fundamental em períodos de chuva.

Antônio Carlos Zuffo, professor da faculdade de engenharia civil, arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista em previsão de enchentes, planejamento de recursos hídricos e drenagem urbana, explica que as inundações ocorrem em Campinas, em decorrência da urbanização desordenada que aconteceu na cidade. "A casa dos nossos avós, geralmente, tinha um jardim na frente, a residência no meio e um pomar no quintal. A quantidade de áreas verdes era maior", disse. De acordo com Zuffo, o layout antigo dos imóveis, substituídos ao longo dos anos por prédios - principalmente na região central, auxiliava na questão, pois possibilitava uma maior infiltração de água. Ao contrário do que ocorre atualmente. "Hoje, praticamente todo o volume de água é jogado no sistema de escoamento", afirmou.

O crescimento da mancha urbana recheada de concreto e asfalto, segundo Zuffo, resulta em uma área impermeável mais suscetível a absorção de energia solar. Isso, implica em chuvas torrenciais na cidade ao mesmo tempo que acontecem chuvisqueiros na zona rural, por exemplo.

INTERTÍTULO: ESPECIALISTA SUGERE AÇÕES CONJUNTAS

Zuffo analisa que o custo do metro quadrado em Campinas é elevado. Então, qualquer interferência urbana por parte do poder público, que acarretaria possíveis desapropriações, entre outros, demandaria gastos estratosféricos. No caso, inviabilizando qualquer projeto. O cenário exige criatividade na procura de soluções mais acessíveis e rápidas, comenta o professor. Dentre as sugestões propostas por Zuffo, está uma maior canalização dos córregos do Proença e Serafim, situados nas avenidas Princesa dOeste e Orosimbo Maia, respectivamente. Uma ação similar surtiu o efeito desejado no Rio Tamanduateí em São Paulo.

O especialista, entretanto, orienta que a medida necessita de obras auxiliares para não transferir o problema de lugar. Seria necessária a construção de um piscinão. O reservatório poderia ser instalado em uma área desocupada entre o Carrefour da Rodovia Dom Pedro I (SP-065) até o condomínio Alphaville, indica Zuffo. Caso essa obra não fosse realizada, a canalização impactaria no Rio Anhumas. Consequentemente, provocando enchentes no Vale das Garças, próximo ao distrito de Barão Geraldo.

Outras intervenções viáveis contemplam a implantação de piscininhas em edificações, a exemplo do estabelecido por lei recentemente na Capital. Esses sistemas de macrodrenagem (como canalização de córregos e grandes reservatórios de retenção e detenção) e de microdrenagem (como as bocas de lobo em guias e sarjetas) ajudam na drenagem urbana, reduzindo a sobrecarga do sistema público de esgoto. "Funciona como um amortecedor de vasão", afirma Zuffo. O engenheiro pede ainda que novas edificações priorizem arquiteturas com telhados amplos, tanto quanto a instalação de jardins no alto dos condomínios. Ambas as medidas, poderiam melhorar a infiltração de água. Além disso, o professor da Unicamp entende que o Executivo deveria focar no aumento de solos permeáveis em parques e áreas que permitiam a utilização do recurso. "Alguns pavimentos seriam trocados criando trincheiras de infiltrações, principalmente nas áreas altas da cidade", disse. Tudo, de acordo com Zuffo, requer um amplo estudo, colaboração da sociedade civil e pode ser realizado a médio e longo prazo.

BOX: RECUPERAÇÃO DEVE DURAR CINCO DIAS

A Prefeitura de Campinas informou, em nota, que o trabalho de recuperação total da cidade deve durar cinco dias. Desde a noite de quinta-feira, estão sendo realizados serviços de limpeza de lama, remoção de resíduos sólidos, desobstrução de bocas de lobo, fechamento de buracos, limpeza de cabeceiras de pontes sobre córregos, recolhimento de galhos e remoção de árvores. No primeiro dia de trabalho, a Secretaria de Serviços Públicos recolheu oito caminhões de lama e resíduos sólidos das vias públicas e das bocas de lobo. Foram lavados 2 quilômetros de ruas, por conta do acúmulo de terra e lama, entre as avenidas Orosimbo Maia, José de Souza Campos (Norte-Sul), Delfino Cintra, Princesa D´Oeste e Barão de Atibaia. Um dos locais mais afetados pelas chuvas foi o cruzamento entre as ruas Barão de Jaguará e Conceição. Neste trecho, o asfalto já foi refeito e o trânsito liberado. Foram utilizadas 30 toneladas de massa asfáltica. Ainda na Rua Barão de Jaguará, entre a Rua Conceição e a Avenida Moraes Salles, uma galeria está passando por reparos e, por isso, o trânsito continua interditado - deverá ser liberado até a segunda-feira à tarde. Foram recolhidos 15 caminhões de árvores e galhos, que foram para o aterro. Esse trabalho foi até as 19h de ontem. Prosseguirá hoje, durante todo o dia. A Prefeitura também fez a limpeza da cabeceira de três pontes sobre córregos do São Fernando. Foram retirados 12 caminhões de lixo, que também foram para o aterro municipal. Na quinta-feira, foram registrados cinco pontos de alagamento no município. A Defesa Civil atendeu 59 ocorrências. A Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (EMDEC) registrou 93 ocorrências. Desse total, 51 foram relacionadas a semáforos e todas as falhas estão sendo sanadas pelas equipes da Emdec.

BOX: FALTA DE ENERGIA

A CPFL Paulista informou, em nota, que aproximadamente 2,9 mil clientes ficaram sem energia na região da Avenida Orosimbo Maia, devido ao temporal que atingiu Campinas no final da tarde de quarta-feira. "A interrupção no serviço foi provocada pelos danos na rede elétrica oriundos da queda de objetos sobre a fiação, como árvores e galhos. Desde o registro das primeiras ocorrências, as equipes de campo da CPFL Paulista foram acionadas, e o fornecimento de energia foi totalmente normalizado em Campinas ainda nesta madrugada", encerra a nota.

BOX: RAIOS

O número de raios que atingiram o solo em Campinas, na última quarta-feira, equivale a quase 28% da quantidade registrada durante o ano de 2018. Segundo o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ocorreram 1.285 descargas anteontem, ante 4.670 contabilizadas no ano passado. "É um valor muito elevado para um município em um único dia", diz nota do órgão.

BOX: TEMPERATURA

Campinas já registra o janeiro mais quente desde 2014 (quando o Estado de São Paulo sofreu com a crise hídrica), segundo o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisadora Ana Maria Ávila informou que a temperatura máxima média no mês é de 32,9ºC - a segunda maior da série histórica iniciada em 1989. Em 2014, a métrica ficou em 33,4ºC. De acordo com a meteorologista, o fenômeno El Niño (alterações consideráveis, que variam de 15 a 18 meses, na distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico) bloqueia as frentes frias no Sul do Brasil. Isso, impacta para um período de maior calor no Sudeste. "As altas temperaturas favorecem a ocorrência de temporais", disse. A previsão do tempo indica temperaturas mínimas de 20ºC e máximas de 32ºC para hoje e amanhã. Em ambos os dias, é grande a possibilidade de novos temporais.

BOX: VOLUME DE CHUVA

O maior índice de chuva registrado na última quinta-feira, foi de 64 milímetros em cerca de 1h40, segundo a Defesa Civil. O volume equivale ao esperado para aproximadamente uma semana. De acordo com os registros do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas a Agricultura (Cepagri), foi o quarto maior volume registrado em um único dia desde 1989, quando a série histórica foi iniciada. O órgão contabilizou quantidades superiores em 4 de novembro de 1992 (74,8 mm), 21 de novembro de 2009 (69,1mm) e no dia 23 de novembro de 2010 (71,6mm). O vento atingiu 73,2 km/h, às 17h20.

FRASE

"Não há uma única e milagrosa solução para o problema das enchentes em Campinas. São necessárias várias ações conjuntas para amenizar gradativamente os impactos"

Antônio Carlos Zuffo - Professor da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp

NÚMERO

1,2

COLABORADORES

Entre funcionários da Prefeitura, terceirizados e reeducandos, atuam na recuperação de Campinas

NÚMERO

31

QUEDAS

De árvores foram registradas pela Defesa Civil de Campinas, após o temporal de quinta-feira

Escrito por:

Daniel de Camargo