Publicado 12 de Janeiro de 2019 - 19h05

Parece-me mais ou menos óbvio que o perfil dos imigrantes brasileiros que buscam os Estados Unidos nos dias de hoje difere, em boa medida, daqueles que faziam a mesma coisa nos anos 60 ou 70. Meu amigo Odair, por exemplo, resolveu se mandar na época a que me refiro. E acompanhei seu caso bem porque, em grande medida, e a meu pedido, ele foi muito ajudado pelo jornalista Arlindo Piva, já falecido, meu colega que era um dos editores do Caderno de Turismo da Folha de S. Paulo. Íntimo de Nova York, pois para lá ia com a mesma facilidade com que vou ao Café Regina. E tomou Odair sob a sua proteção para orienta-lo na Big Apple.

Bom, mas o que queria contar é que depois de ter amealhado uma bela grana na América, o nosso antigo imigrante, posso até dizer que em situação de rico, resolveu voltar ao Brasil. E mora, hoje, num belíssimo sítio ali para os lados de Morungaba, senhor absoluto da sua paz e do cintilante prazer de viver a idade madura nesta Idade da Pedra em que o Brasil teima em nadar. Sempre que posso vou lá tomar uma taça com ele.

Na última vez em que fiz isso, assim de estalo, no meio do papo, perguntei qual, nos mais de 40 anos de Nova York, teria sido o fato realmente marcante da sua vida na grande cidade.

- Ah – ele imediatamente respondeu - não tenho nenhuma dúvida em te garantir que algo realmente espantoso me aconteceu quando fazia pouco mais de dois anos que eu tava batalhando lá. Foi na noite do grande blecaute, lembra?

Mas deixa que, antes, eu abra dois parêntesis para dizer que Odair, naquela época, era um verdadeiro galã. E exatamente o tipo do bonitão que fazia o gênero das moças americanas, com seu visual de “latin lover”. O parêntesis dois é para contar que o grande blecaute a que ele se refere ocorreu exatamente em meados dos anos 70, e foi algo apocalíptico, impensável. Pois, de repente, todas as luzes de Nova York se apagaram, provocando um caos até hoje nunca igualado naquela cidade. O fato rendeu, entre outras coisas, nada menos de cinco best-sellers, sendo um deles, famosíssimo, de Arthur Halley. Também filmes sobre o episódio pintaram pelo menos uns três. Bom, mas volto ao que Odair me contava, quando detalhou as confusões causadas pelo blecaute.

- Ah – ele sorriu – atingiu todo mundo; mas como a mim, não.

- Bom – coço a ponta do nariz – mas, afinal, o que de tão insólito aconteceu contigo então?

- Na verdade – ele suspira – naquela noite eu fui visitar uma fulana com quem andava saindo.

Faz pausa para dar um gole na taça; em seguida, completa:

- Casada.

- Espeto – respondo, a mastigar um naco de queijo.

- Pois é, fui ao apartamento da dona, numa boa, uma vez que ela morava não muito longe de mim.

- O que facilitava bem as coisas. Mas... Você não disse que a dona era casada? E o marido?

- Estava na Califórnia, viagem de negócios.

- Já vi tudo... – Interrompo.

- Engano seu. Você não viu nada.

- Então não me deixa nesse suspense...

- Pois é, eu e ela ficamos na sala, numa boa; porém, com os impulsos que a situação favorecia, fomos parar no quarto.

- Tinha que ser... – Junto as mãos.

- Bom – Odair se ajeita na cadeira – no que estávamos lá com o testemunho apenas dos lençóis, ouvimos, de repente, um barulho.

- Que barulho?

- De alguém

- Que alguém?

- Alguém abrindo a porta do apartamento.

- O marido?

- O marido. Apavorada, a fulana dá um salto felino da cama e cai, de pé, no meio do aposento.

- E você?

- Eu, atarantado, olhei para um lado e outro, sob a luz macia de um abajur. Foi aí que avistei o guarda-roupa.

- Se enfiou nele?

- Claro, exatamente pra isso me preparei. Só que quando coloco a mão na porta, pimba, a luz apagou. Era o começo do blecaute que atingiu a cidade inteira. Não dava pra se enxergar um palmo adiante do nariz.

- E o marido?

- No que pinta a escuridão, ele berra pelo nome da mulher e ela responde.

- E você?

- Bom, eu, com a providencial negritude que tomou conta do mundo, fui tateando até chegar à saída de serviço do apartamento, por onde desci. Só que deu tudo errado.

- Mas como deu errado? – Me espanto – Você não escapou?

- Escapei. Porém, quando cheguei à rua, vi que estava completamente nu. Enquanto isso, lá em cima, o marido, ao acender uma vela, deu com minhas roupas sobre uma poltrona.

- Bom, mas se você tinha fugido, maravilha. Tudo bem!

- Engano seu. Pois, no meu bolso estava a carteira com documentos, talão de cheques, cartões de crédito etc. O cara me achou.

Daí, Odair levantou a camisa. Para mostrar as marcas deixadas pelos dois tiros que recebeu. No lado direito do abdome.