Publicado 26 de Janeiro de 2019 - 5h30

O histórico de tragédias decorrentes de temporais em Campinas é extenso. Muito antes da forte tempestade de 64 milímetros em cerca de 1h30 que causou a morte de um motociclista de 41 anos na Avenida Princesa d'Oeste e alagou dezenas de ruas e vias da cidade anteontem, o Correio Popular já havia noticiado em 12 de agosto de 1976 uma violenta chuva de granizo que aterrorizou os moradores.

Na ocasião, o texto na capa enfatizou que “nunca a população assistiu a tal fenômeno e com tamanha violência como ontem pela manhã, causando sérios transtornos e apreensões” e que “não houve canto da cidade que não mostrasse a passagem de uma das mais violentas chuvas de granizo dos últimos tempos”.

Em 3 de janeiro de 1990, o jornal destacou em sua manchete a “chuva do século”. Na ocasião, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) contabilizou 138 milímetros de precipitação em um único dia, o equivalente a 138 litros de água despejados em cada metro quadrado de terreno – mais que o dobro do temporal da última quinta-feira.

Como consequência, o então prefeito Jacó Bittar decretou estado de calamidade pública na época. A cidade foi devastada, com desabamento de casas, avenidas afundadas, estradas bloqueadas e cerca de 2,5 mil pessoas desabrigadas.

Em fevereiro de 2003, uma forte chuva deixou quatro mortos e 150 desabrigados. Só em uma casa no bairro Parque Imperador, a Guarda Municipal localizou três corpos de vítimas de afogamento: uma criança, uma mulher de 20 anos e um homem de 50 anos. No Jardim Tamoio, uma mulher foi sugada por uma tubulação de esgoto e morreu. Já na Avenida Princesa d'Oeste, a mesma onde ocorreu a morte por afogamento anteontem, um sargento do Corpo de Bombeiros teve parada cardiorrespiratória depois de ajudar a salvar um frentista que foi arrastado pela enchente e estava ilhado na via, mas sobreviveu. Até o saguão do Aeroporto Internacional de Viracopos foi tomado pela água naquela tarde.

Outro temporal que traz tristes lembranças à população de Campinas ocorreu no fim de outubro de 2007. Os jovens Matheus Gabriel Bonassa e Luisa Rodrigues de Moraes, ambos com 25 anos, morreram depois que o veículo em que eles estavam foi arrastado pela correnteza de uma enchente na Avenida Orosimbo Maia — Matheus cursava o último ano de Medicina na PUC-Campinas e Luisa era ex-aluna de nutrição da universidade.

Mais recentemente, em junho de 2016, uma microexplosão arrasou diversos bairros como Taquaral, São Quirino e Jardim Nossa Auxiliadora, além do Distrito de Sousas. Uma nuvem carregada de ar, água, granizo e acompanhada de ventos intensos que atingiram até 120 km/h, deixou um enorme rastro de estragos em Campinas, com cinco pessoas levemente feridas. Na época, o temporal destruiu parte do telhado do Galleria Shopping e as vitrines de algumas lojas. Ainda houve alagamentos de vias e de veículos, queda de ao menos 120 árvores, desabamentos, destelhamentos de dezenas de casas e interrupção de energia elétrica. No ano seguinte, em novembro de 2017, um corretor de imóveis morreu ao tentar ajudar uma família cujo carro era arrastado pela enxurrada na Avenida Orosimbo Maia.

Família de motoboy fala em descaso

A família do motoboy Maurílio Torres Peres, 41, que morreu afogado anteontem, na Avenida Princesa d’Oeste, em Campinas, depois de ser arrastado pela enxurrada, acusa o Poder Público de descaso e avalia entrar com um processo contra a Prefeitura. Durante o velório, na tarde de ontem, no Cemitério dos Amarais, o clima era de inconformismo e revolta. Peres era casado e não tinha filhos, mas deixou duas enteadas de 12 e 15 anos, além de quatro irmãos, sendo um deles gêmeo e o pai de 75 anos.

O autônomo Donizeti Aparecido Torres, 52, irmão mais velho de Peres, afirma que a família não acredita em fatalidade e sim descaso. “É um descaso das autoridades, do prefeito, dos vereadores, dos irresponsáveis que não tomam providência. Há quantos anos vem acontecendo isso aí. Ameaça chover já tá inundando”, aponta.

Ele disse que espera providências por parte da Prefeitura para que o irmão dele não seja apenas mais uma vítima. “Quero que analisem. Eles têm meios para isso, órgãos competentes. Faz uma engenharia bem-feita, faz bolsões, canalizem, faz áreas de escoamento. Tem como fazer. Por que não fazem?”, questiona.

O clima no velório era de revolta e incredulidade da família e amigos. Os outros irmãos do motoboy estavam sem condições de falar, chorando muito e questionando a tragédia. O irmão gêmeo dele era um dos mais abalados.

Torres diz que avalia a possibilidade de processar a Administração Municipal por responsabilidade na morte do irmão. “Nós nem tivemos tempo de pensar nisso ainda. Foi tudo muito de repente. Tivemos que correr atrás de documentação de um lado para o outro para o enterro.Mas se houver a possibilidade vamos entrar na Justiça sim. Eles precisam pagar pelos erros deles”, acusa.

No dia em que morreu, Peres completava uma semana no novo trabalho em uma autopeças, de acordo com familiares. “Ele estava muito feliz no emprego novo. Fazendo o que gostava. Ele estava na maior felicidade”, comenta Torres.