Publicado 26 de Janeiro de 2019 - 5h30

Causou surpresa e constrangimento nesta semana a decisão do deputado federal reeleito Jean Wyllys (Psol) de renunciar a seu mandato em que seria empossado na semana que vem, sob a alegação de risco de vida por conta de ameaças que vem recebendo há tempos, a ponto de ser obrigado a andar com seguranças e carros blindados no Rio de Janeiro, estado que ele representa na Câmara Federal. Fora do País em local não divulgado, o polêmico deputado anunciou sua desistência da vida pública e a disposição de não mais voltar ao Brasil.

O professor de História Wyllys ganhou status de celebridade depois da participação em uma das edições do programa Big Brother Brasil, sendo eleito pela primeira vez em 2010 com pouco mais de 13 mil votos. Sua atuação lhe garantiria perto de 145 mil votos em sua reeleição em 2014, fruto do destaque na defesa de minorias LGTBs e pelo combate a políticos de perfil mais conservador, especialmente os ligados a grupos evangélicos. Não passou desapercebido o atrito constante com Jair Bolsonaro (PSL) na Câmara Federal, onde frequentemente trocavam ofensas e provocações. Em sua saída da vida pública, cita as milícias criminosas no Rio de Janeiro, inclusive fazendo menção ao assassinato da colega de partido Marielle Franco, a inação da Polícia Federal que respondeu com o silêncio às suas denúncias, a perseguição que sofreu com as fake news – que devastaram seu capital eleitoral até os 24 mil votos recebidos nesta eleição.

O caso de Wyllys é sério e merece reflexão. A que ponto chegou a política brasileira – em especial no Rio de Janeiro que tem se notabilizado pela violência e ação de quadrilhas em todos os níveis –, onde um representante popular e seus familiares chegam ao cúmulo de serem hostilizados e ameaçados de morte, e o Estado não lhe garante a mínima condição de segurança. Não cabe qualquer julgamento de mérito sobre a forma de atuação do deputado, mas o respeito irrestrito ao seu mandato.

Há, por outro lado, a surpresa da atitude de Jean Wyllys, compreensível até certo ponto pelo esgotamento diante de uma situação de pressão extrema. Mas há também o compromisso de ter entrado na política justamente para mudar este estado de insegurança e para a luta pelos direitos individuais. Melancolicamente, Wyllys sai da vida pública e do Brasil em momento de fragilidade pessoal e deixa o legado de um País intolerante, incapaz de conviver com as diferenças e onde as indisposições pessoais e ideológicas vêm tomando um rumo preocupante.