Publicado 13 de Janeiro de 2019 - 5h30

Paulínia, conhecida como ‘Cidade Feliz’ por muitos anos, está deixando de lado o atendimento à população e a manutenção de prédios públicos. A instabilidade política travou a ação do poder público há 11 anos, quando o município enfrentou nada mais, nada menos, que 11 trocas de prefeitos e seis nomes diferentes.

A crise política começou ainda durante o pleito eleitoral de 2012, quando o ex-prefeito Edson Moura (MDB) lançou a candidatura mas foi barrado pela lei da ficha limpa.

Desde então, para os moradores, nada mais foi igual em uma das cidades mais ricas e que mais arrecadam impostos na Região Metropolitana de Campinas (RMC). Em 2017, o IBGE afirmou que Paulínia era a 2 cidade mais rica do Brasil per capita, ou seja, por habitante. Porém, os reflexos dessa propalada riqueza não chegam, por exemplo, ao atendimento na saúde.

Moradora de Paulínia há mais de cinco décadas, a cozinheira Neuza Aparecida Rodrigues, de 56 anos, precisou do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas teve o pedido recusado.

“Em pleno Natal, minhas pernas começaram a inchar muito e parecia ser bem grave. Solicitei a ambulância, quando fui informada que as três unidades móveis estavam em uso e me sugeriram ir para o hospital por conta própria. Tive a sorte de meu genro estar em casa por ser uma data festiva. Estava com uma grave infecção”, contou a moradora.

Segundo ela o pronto-socorro estava lotado e o atendimento demorou horas. Além disso, a farmácia estava fechada e a cozinheira ainda teve que comprar a medicação. “É triste depender de um serviço público de saúde que está abandonado. Nunca vi a cidade tão largada às traças como nos últimos anos. Pior que isso, não espero que vá ficar”, lamentou.

“Desde 19 de maio de 2014”, respondeu o comerciante Edesio Santos Moura, de 71 anos, conhecido como Bahia, quando foi questionado pela reportagem do Correio Popular, sobre o fechamento do Parque Ecológico de Paulínia.

O vendedor de caldo de cana ainda insiste em parar a perua em frente ao espaço lacrado, pois o sustento da família depende disso. “Tem dia que a venda não paga a gasolina. Ano passado, eles colocaram grades no entorno do parque para evitar invasões, mas, mesmo assim, mês passado, roubaram um pavão”, revelou.

Ele conta que os funcionários continuam entrando e saindo diariamente pelos fundos. “Não sei o que eles fazem. Esse lugar está um abandono, quando, em pleno período de férias, deveria estar funcionando e com a manutenção em dia. Muitos comerciantes, além de mim, foram prejudicados”, reclama.

Ele chamou ainda a atenção para a calçada que estava toda quebrada. “A cidade toda está abandonada. Culpa desses políticos que não estão brigando nem por mim, nem por você, mas sim por dinheiro e cargos”, indigna-se.

Espaços públicos

O sambódromo de Paulínia, localizado no Parque Brasil 500, está abandonado há mais de dois anos, com muito mato alto, pichações e acúmulo de materiais de carnaval, de escolas de samba, jogados por todos os lados. Em 2016, a Prefeitura disse que estava realizando um estudo técnico para fazer a reforma do complexo, mas nada foi feito até então.

As piscinas do Centro Poliesportivo do Jardim Monte Alegre estão em estado de abandono. Um dos equipamentos tem até grama nascendo, o que demonstra não ser utilizado há um bom tempo. O equipamento ao lado de onde fica o Paulínia Racing Bicicross só está sendo utilizado porque, segundo os administradores, se trata de uma concessão de terreno da Prefeitura.

Educação

A falta de atendimento nas creches também está prejudicando muitas famílias. Pai de três filhos, o operador de campo Julio César Amaro de Moraes, de 38 anos, reclamou do atendimento no período de recesso escolar. “Antes, sempre havia atendimento para as crianças em janeiro e fevereiro. Afinal, eu e minha esposa precisamos trabalhar nesse período também. Agora, devido a essa bagunça na Prefeitura, o convênio foi rompido e estamos com as crianças em casa. É um absurdo!”

A esposa, Tamires Amaro, de 32 anos relatou como está o atendimento de saúde da cidade. “A avó do Júlio precisou buscar as sondas necessárias para sua alimentação e sobrevivência e foi informada de que, até que o problema político seja resolvido, não será mais disponibilizado. Passamos a gastar R$ 250,00 por mês só com isso”, disse a auxiliar administrativa, enquanto esperava atendimento no Hospital Municipal de Paulínia. “Não temos nenhuma expectativa de que esse quadro vá mudar, nem que a situação política se resolva”, concluiu.

“Estou há três horas esperando ser chamada na enfermaria lotada para tomar a minha medicação. Precisa dizer mais alguma coisa?”, completou Vanderli de Miranda Sturaro, de 59 anos.

Abandono

Na porta da unidade ainda estava a dona de casa Ana Carolina Carvalho de Sousa, de 24 as. Ela foi ao hospital várias vezes, devido a uma infecção urinária. “Por conta do péssimo atendimento, já estou com os meus dois rins atingidos. Finalmente alguém veio conferir o quão deplorável está a saúde de Paulínia. Precisamos de socorro”, apelou.

“Se isso é reflexo dessa mudança no poder público? Com certeza. Alguma cidade que teve em 11 anos 6 prefeitos pode estar em ordem com os serviços que presta? Jamais. E a tendência é piorar”.

Cancelamento de cirurgias eletivas, atraso no pagamento de médicos, redução das horas extras e falta de insumos básicos, como fios cirúrgicos, antissépticos e até sabão para lavagem das mãos são alguns dos problemas enfrentados por quem trabalha no local, mas a Administração pública paulinense sempre alega que herdou problemas da gestão anterior.