Publicado 13 de Janeiro de 2019 - 5h30

Aristóteles já pregava que política é a arte de bem comum, ou seja, o instrumento para descobrir como atingir a felicidade, criar um estilo de administração e instituições sociais capazes de propiciar este estado de satisfação. Os verdadeiros políticos seriam, assim, pessoas despojadas de vaidade e orgulho pessoal, dedicadas às causas republicanas. Ficção à parte, o exercício da política implica em confronto de ideias e ideologias, programas de governo, prioridades orçamentárias, criando um antagonismo próprio que pode ser administrado com grandeza e sabedoria, ou esgaçar-se em contendas miúdas que desgastam a atividade pública e instigam a insatisfação da sociedade.

Todo fim de governo, especialmente quando se dá uma troca visível de objetivos e propostas, cerca-se da expectativa de como e quando as mudanças começam a ocorrer. É o caso do Brasil de hoje, em plena transição entre o petismo e o bolsonarismo, uma rivalidade que se desenhou e se intensificou durante a campanha eleitoral. É senso comum que a ascensão de Jair Bolsonaro (PSL) teve o antipetismo como um componente vital para a campanha, que casava com suas propostas de uma conversão radical à direita. Passada a eleição, esperava-se que a tormenta amainasse e os temas de governo começassem a ocupar o devido espaço. Mas a posse de Bolsonaro foi marcada por retórica contrária a qualquer simbologia que remetesse ao ideário de esquerda. É como se fosse necessário manter vivo o fantasma de uma ameaça comunista, que serve de justificativa para a reviravolta legal, como a dizer, ou isso ou a volta do PT.

No outro extremo, os derrotados insistem em suas teses de perseguição política, golpe, injustiças, vitimização, como se não fossem responsáveis por tudo que foi fartamente demonstrado durante seu estágio no poder. E o PT tem doutorado em criar adversários públicos para encobrir seus próprios erros e defeitos. Seguem distribuindo aos quatro ventos sua ladainha de únicos responsáveis por quaisquer ganhos sociais, distorcem a realidade do fracasso que foram suas políticas econômicas, apostam na desmemória do esquema de corrupção patrocinado pelos potentados do partido, e acomodam-se no papel de oposição que lhes cabe mais facilmente.

Com isso, a política brasileira mantém o espírito de cisão entre o nós e eles, um rito que convém apenas a quem não tem respostas positivas para tudo. Para estes, é preciso alimentar os adversários para se manterem vivos, mesmo abrindo mão da arte do bem comum.