Publicado 11 de Janeiro de 2019 - 5h30

Há exatamente um mês, a Catedral Metropolitana de Campinas viveu o capítulo mais triste de seus 135 anos de história. Um ambiente de fé e de paz virou palco de uma chacina que deixou seis mortos, incluindo o atirador responsável pelo ataque. Para quem viu de perto as cenas do massacre, esquecer o ruído dos disparos, os minutos de pânico e as manchas de sangue no interior do templo religioso ainda é tarefa das mais complicadas. O Correio Popular entrou em contato nesta semana com alguns dos sobreviventes e constatou que a maioria deles ainda resiste em voltar à Catedral. “Ainda não consegui ir à Igreja desde então. Só agora estou conseguindo dormir melhor, mas relembrar este pesadelo é muito difícil”, disse a estudante Dirceia Pereira de Oliveira, de 37 anos. “Tenho dificuldade de falar desse dia ainda. Não me sinto bem de lembrar”, comentou a agente comunitária de saúde Giovanna Guedes Cardoso, de 22 anos. O pároco da Catedral, monsenhor Rafael Capelato, lembra que o mês que se passou foi dos mais difíceis. “Recebi muitas pessoas ligadas às famílias das vítimas, que me procuraram para desabafar, chorar e pedir um abraço. Felizmente tivemos a ajuda de alguns psicólogos voluntários que também se prontificaram a amparar essas pessoas”, afirmou. Segundo ele, somente o tempo será capaz de quebrar a barreira do medo e das más lembranças de quem ainda está reticente em voltar à Igreja. “É o tempo que vai curar essa ferida que se abriu. Desde o acontecido, temos nos esforçado muito para retomar as atividades pastorais e sempre falando muito para o povo usar as orações como remédio para essa dor. A Catedral jamais deve deixar de seguir com sua missão que é abrir as suas portas para propagar a paz, a vida e o amor", pontou. A aposentada Pasqualina Assis de Souza, 76 anos, frequenta a Catedral há cinco décadas e canta no coral da igreja. Ela estava no dia do ataque a tiros. E conta que não foi fácil retornar à paróquia no dia seguinte da tragédia. “Sempre que acaba a missa, ainda ficamos um tempo aqui preparando a próxima missa e as músicas que vamos cantar. Naquele dia, quando percebemos o que ocorreu, ficamos parados e sem reação. Quando vi o rapaz com a arma, pensei que fosse morrer", relatou, com os olhos marejados. “Foi muito difícil voltar à Catedral no dia seguinte, na missa da purificação. Precisei ir para o psicólogo durante uma semana, porque os estampidos dos tiros não saíam do meu ouvido. Eu não conseguia comer e dormir, só chorava", completou. Lucas Santos Ambrozini, de 35 anos, é ministro da Eucaristia na Catedral e também estava lá no fatídico 11 de dezembro. Para ele, a fé não pode se abalar pelo ocorrido. “Eu morei 25 anos na periferia, já vi muita coisa parecida. Dá uma impotência saber que não pode fazer nada com um cara armado e sempre dá um receio de isso virar moda, mas não podemos deixar o medo tomar conta da gente. A fé dos verdadeiros cristãos não vai se abalar por isso”, previu.

Cadeiras substituem os bancos atingidos por balas

Desde o massacre de 11 de dezembro, 22 bancos atingidos por estilhaços das balas foram levados a uma sala para ser revitalizados. No entanto, este trabalho ainda deve levar alguns meses, já que o prédio da Catedral é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) e este trabalho depende da autorização do órgão. No lugar destes bancos, dezenas de cadeiras foram colocadas de forma improvisada. A segurança também foi reforçada desde a tragédia. Novas câmeras de monitoramento foram instaladas e vigilantes que trabalham no local tiveram de redobrar as atenções. “Qualquer piscada de olho a gente tem que ficar em cima”, disse o vigilante Zeilton Neves de Souza, que viveu uma situação inusitada no dia do Natal. “Entrou um rapaz com uma bola feita com jornal e disse que era panetone. Achei muito suspeito, fiquei desconfiado e mandei ele abrir o papel. Era mesmo panetone”. Nesta sexta, a Catedral Metropolitana de Campinas realizará às 12h15 a missa de um mês em lembrança aos mortos na chacina. (RP/AAN)