Publicado 11 de Janeiro de 2019 - 5h30

Entre as muitas bandeiras levantadas por Jair Bolsonaro (PSL) e sua equipe de governo, propagandeadas desde a campanha eleitoral, a moralidade no setor público era uma das metas mais comentadas. Depois de tantos anos de supremacia do petismo no governo, com o aparelhamento de toda a máquina estatal em favor dos companheiros e do esquema de corrupção instalado, era de se esperar um processo de saneamento do setor público, com a redução do número de comissionados e a adoção de critérios éticos para o preenchimento de vagas. O discurso de Bolsonaro de iniciar uma era diferenciada na política brasileira inclui em grande parte a moralização da burocracia estatal e o combate ao desperdício e ao loteamento de cargos em troca de favores políticos. Tão forte esta proposta que o ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni demitiu sumariamente todos os funcionários comissionados em sua área, criando desconforto até mesmo entre seus companheiros de governo pelo radicalismo da decisão.

Como se não bastassem as confusões em sequência neste início de governo, que vem acumulando dores de cabeça em vários setores, a nomeação do filho do vice-presidente para um cargo de assessor da Presidência do Banco do Brasil teve uma repercussão extraordinária, pela inoportunidade e falta de tato político. Funcionário de carreira no banco há quase duas décadas, Antonio Hamilton Rossel Mourão talvez reúna mesmo todas as qualidades defendidas pelo pai e pelo novo presidente do BB, pode ser que seja verdade que tenha sido preterido no passado por conta de sua relação com o PT, e a nomeação seja legal, mas não poderia escolher momento mais inadequado.

Quando a moralidade e transparência são requisitos mais do que elementares, o salto na carreira e na faixa de salário na posse da nova diretoria do banco causou estranheza, atraiu a indignação popular e serviu de munição aos opositores. Um mal-estar que poderia ser evitado em momento tão delicado. Quando o ministro da Economia Paulo Guedes deu posse aos presidentes dos bancos federais, reafirmou o compromisso do governo com a transparência e profissionalismo, para em seguida se tomar conhecimento da nomeação tempestiva do filho do vice-presidente. Neste clima de constrangimento, ainda merecem críticas as atitudes dos filhos de Bolsonaro que assumem um inoportuno protagonismo como guarda-costas presidenciais. Ao que parece, os novos ocupantes do Planalto estão a sugerir um novo lema para o governo, “O Brasil acima de tudo e os filhos acima de todos”.