Publicado 07 de Dezembro de 2018 - 14h24

Por Adagoberto F. Baptista

Foto: Thomaz

Henrique Hein

Da Agência Anhanguera

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“Ai, tadinho! Ele é tão novo. Que judiação!”. Frases como essas são comuns na vida de Leandro Fernandes Mazoni, de 30 anos. Formado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o engenheiro de alimentos já se acostumou a manejar a cadeira de rodas, com quem conviverá pelo resto de sua vida. Em janeiro de 2007, uma lesão na quinta vértebra cervical do pescoço, ocorrida na borda de uma piscina, o deixou tetraplégico, aos 19 anos. As limitações apareceram e vieram acompanhadas do preconceito em todos os lugares: bares, shoppings, e até mesmo, em ruas do distrito de Barão Geraldo, local onde mora há pouco mais de uma década. “Passei muito tempo da minha vida mexendo apenas os olhos e a boca”, afirmou.

Em meio a tantas barreiras, Mazoni encontrou na academia um estímulo para superar as adversidades sociais. “Minha lesão, felizmente, não é completa. Isso me permitiu, com o tempo e com muito esforço, voltar a mexer meus braços e retomar parte da sensibilidade nas pernas e em alguns membros. Se ela fosse completa, eu não mexeria meu corpo e dificilmente teria a independência que tenho hoje”, comentou.

Apesar do esforço sobrenatural, sua participação na academia ou em qualquer lugar não passa despercebida por frequentadores. Alguns olham com estranheza, outros com admiração, mas o fato é que ele dificilmente escapa dos holofotes. “As pessoas me veem como um coitado e isso me incomoda, porque eu não me vejo assim. Na verdade, isso não existe para mim, porque eu me considero uma pessoa normal como outra qualquer”, explicou.

Quando mais jovens, o deficiente encontrou dificuldades. Na Unicamp, por exemplo, só conseguiu se formar depois de muita luta. “Era comum perguntarem para minha mãe qual era curso a distância que eu fazia, como se a minha limitação fosse uma justificativa que me proibisse de sair de casa”. Além do preconceito, Mazoni tinha um segundo obstáculo: a infraestrutura da universidade. “Foi bastante desafiador, porque não haviam prédios aptados e aptos para me receber. Por sorte, encontrei alguns professores que foram bem prestativos e que me ajudaram a me formar em um ambiente que não era nem um pouco inclusivo”, contou.

O engenheiro é sincero ao conta que não consegue lidar com naturalidade do preconceito que sofre todos os dias. “Quando vou no bar sou julgado por pessoas que entendem que não posso estar ali desfrutando daquele momento. Se eu vou comprar roupas, é comum que atendentes falem com a pessoa que está me acompanhando e virarem a cara para mim. É difícil lidar isso o tempo todo”, ressaltou.

Atualmente, o deficiente trabalha na área de análise de dados de um dos maiores aplicativos voltados para a entrega de ramos alimentícios do País. Na empresa, desde 2017, ele se sente em casa, já que seus colegas se esforçam para transformar o ambiente de trabalho em um ambiente mais inclusivo – tudo para que não sofra discriminação e seja tratado apenas como mais um funcionário, como outro qualquer. “Os ambientes precisam ser mais inclusivos para que as pessoas possam fazer suas atividades. Eu não ligo de ir em algum lugar que não seja inclusivo e me virar, mas tem pessoas que se importam. Se as coisas fossem mais adaptadas, teríamos muito mais cadeirantes fazendo qualquer tipo de atividade”, opinou.

Academia

Todo mês, o cadeirante Leandro Fernandes Mazoni segue um ritual: entra no estacionamento da academia Six Fitness, em Barão Geraldo, onde “bate ponto” religiosamente de três a quatro vezes por semana. Quando chega no local, o engenheiro sai a procura do instrutor Lucas Wuo, que o ajuda a realizar seu treino. Os exercícios têm como objetivo principal fortalecer os membros superiores, para que Leandro possa ter mais autonomia nas tarefas diárias.

Para isso, o instrutor faz adaptações que priorizam os aparelhos com bases mais largas e apoio nas costas, além de usar uma luva de velcro com garras para auxiliar a pegada dos objetos. “O treino apresenta poucas adaptações e está prescrito dentro das limitações dele. Mas, ao mesmo tempo, é um treino bem similar ao de um individuo normal e que não possui nenhuma lesão medular”, explica o professor.

“Os caras (profissionais da academia) foram extremamente solícitos comigo e se prontificaram, desde o início, a montar um treino voltado para as minhas necessidades. A ideia é não aliviar, porque eu sou tetraplégico. Afinal, se eu estou na academia é para malhar tanto quanto as outras pessoas”, afirmou.

Embora a academia seja uma modalidade que envolva 100% do físico, isso não impede que pessoas como Leandro pratiquem os exercícios (pelo contrário). A prática de atividades físicas e esportivas é um direito de todos, conforme preconiza a Lei Federal de nº. 10.098/2000, que estabelece regras de acessibilidade nos edifícios de uso coletivo.

Apesar de bem humanizado, a legislação, na prática, dificilmente é seguida pela maioria das academias, que não fazem questão de facilitar a acessibilidade e mobilidade dos portadores com deficiência.“O simples fato de possuir uma limitação, é vista pelas pessoas como um motivo para exclusão. Fui em praticamente todas as academias de Barão Geraldo e a resposta que tive (na maioria delas) era sempre a mesma: que nada poderia ser feito por mim. Foi um preconceito estampado na minha cara da forma mais pura possível”, explana o cadeirante.

Para aqueles que possuem alguma limitação física e acham que não podem fazer coisas simples, como frequentar uma academia, um bar ou uma festa, por exemplo, Leandro deu a letra: mexa-se, porque você é capaz. “Você vai sofrer preconceito de qualquer maneira e as pessoas vão te julgar por ser diferente. Mas, mesmo que você fique em casa, uma hora ou outra, você também vai ter contato com alguém que não está preparado para lidar com uma pessoa como deficiência. Então, a dica que eu dou é para você ter uma vida normal”, afirmou.

ELEMENTO:

“Ter uma deficiência não me transformou em alguém melhor ou pior. Apenas colocou um obstáculo a mais na minha vida. Ele não me impede de superá-lo todos os dias para ser feliz.”

LEANDRO FERNANDES MAZONI

ENGENHEIRO DE ALIMENTOS

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista