Publicado 08 de Dezembro de 2018 - 19h05

Naqueles dias, estando no litoral do Pará, eu jogava o anzol; não para capturar peixes, mas histórias. E ali em Paquara elas se reproduzem em solene simplicidade – um paradoxo apenas aparente, pois tudo, na beira-mar da Amazônia, é revestido de certa mítica riqueza. As pessoas contam com voz pausada, e os detalhes são ricos; quer no prefácio quer no epílogo.

Assim foi que certa manhã me falaram na Pedra do Rei Salomão. Como dela não sabia nada, mesmo frequentando a área há muitos anos, perguntei mais, com respostas imediatas. Primeiro a localização: está encravada no vilarejo de São João de Pirabas, uma enseada de pescadores não muito longe da cidade balneária de Salinópolis. E tal Pedra, segundo me garantiram ali na roda banhada por algumas cervejas, emitiria, à noite, estranho brilho, variando do azul a uma espécie de amarelo esverdeado. Encontra-se, de resto, numa espécie de ilhota, para a qual os crentes nos poderes transcendentais da enorme rocha levam, para depositar no sopé, oferendas por milagres recebidos, graças alcançadas.

- Naquele pequeno pedaço de chão – me detalhou um pescador – estão velas, miniaturas de barcos, garrafas de cachaça ou cerveja, sempre cheias, moedas, retratos etc.

- E ninguém, por exemplo, mexe nas garrafas? Ou nas moedas?

- Se a pessoa precisa de uma pinga, ou uns trocados, pode pedir emprestado. Mas ai daquele que não devolver...

De tudo que ouvi, duas histórias me pareceram particularmente curiosas. Uma envolvendo um pescador que, vítima de maré de pouca sorte, foi à Pedra e fez promessa solene: levaria ao Rei Salomão uma caixa de cervejas se conseguisse encher o barco de tainhas. Isso feito saiu para o mar, onde ficou pasmo com o que começou a acontecer: já na primeira jogada da rede ela quase arrebenta de tantos peixes. Na segunda, lotou o barco. Voltando pra terra vendeu o produto da imensa colheita, mas esqueceu de pagar a promessa. Não demorou, passados dois dias, após uma caldeirada feita com o produto do que pescara, morreu de indigestão.

Súbito alguém na roda falou de uma pessoa conhecida como “João das Duas Irmãs”, e eu fiquei curioso. Logo contaram:

- Tal pessoa, moradora aqui mesmo em Pirabas, se apaixonou loucamente por uma garota, menina novinha, ainda meio adolescente. Só que ela não correspondia.

E mesmo com o sujeito fazendo o possível e o impossível para a conquista, nada! A doida paixão, afinal, acabou por descambar para situação extrema: João resolveu dar cabo da própria vida, por ter concluído que não poderia viver sem a menina. Para o gesto medonho arranjou um pesado pedaço de trilho, que atou, com uma corda, ao próprio pescoço. Isto feito subiu à ribanceira que corria ao longo do mar, para se atirar às profundezas. Como era noite, uma daquelas noites de verão que, mesmo sem lua, ficam quase luminosas apenas com as estrelas, ele de repente vê outro brilho, diante dos seus olhos: era o cintilar, com suas exóticas cores, da Pedra do Rei Salomão; plantada na ilhota que flutuava batida pelas ondas baixas. Imediatamente o rapaz desata o nó do pescoço, atira o peso de ferro pela ladeira, e faz a solene promessa: caso a mocinha concordasse em casar com ele, levaria para o monarca milagroso a oferenda de dez garrafas de cachaça e cinco pacotes com velas. Como quem me contava parou um pouco de narrar, agarro ao braço dele, ansioso:

- E deu resultado?

- Claro – o outro me olha – deu sim. Pelo menos num primeiro momento...

- Como primeiro momento? --- Ergo as sobrancelhas.

- É que uma dúvida cruel passou a assaltar o João.

- Puxa vida, conte logo.

- É que – o narrador segue – a quase criança com quem o rapaz casou tinha uma irmã.

- E daí?

- Gêmea. Idêntica. A cara duma era o focinho da outra. E o moço passou a viver a dúvida. Até chegar à conclusão de que casara com a pessoa errada.

- Ora, francamente... – Me agito no tronco no qual estava sentado.

- Calma – o amigo olha nos meus óculos – calma. Pois você vai já saber o que aconteceu.

Sou informado, então, que o complicado sujeito, que pagara direitinho a primeira promessa, voltou a apelar para a Pedra do Rei Salomão. À qual prometeu infinidade de prendas. Só que, desta vez, o milagre não se deu imediatamente. E as meninas foram crescendo.

- Não me diga que tudo terminou assim?... – Solto franca decepção.

- Negativo. Pois, com o passar dos meses, no rosto da gêmea solteira começou a nascer barba.

- Barba? – Dou um berro.

- Sim, barba, pois, na verdade, se tratava de um rapaz que a família, de gente muito humilde, preferiu criar como menina.

- E o João?

- Bem – o narrador termina – não demorou e João, simplesmente, fugiu com o cunhado. Sem que nunca as pessoas ficassem sabendo se por novo milagre da Pedra do Rei Salomão; ou alguma outra coisa qualquer.

Nesse instante alguém, ao lado, murmura, ao meu ouvido:

- Vai ver que ele estava era à procura de “alguma outra coisa qualquer”...