Publicado 08 de Dezembro de 2018 - 8h43

Por Renato Piovesan

Poluição gera aumento descontrolado das macrófitas, que têm importante função para remover excesso de nutrientes da água: prejuízo ao fluxo de embarcações e comprometimento do turismo e do lazer na represa

Thomaz Marostegan/Especial para AAN

Poluição gera aumento descontrolado das macrófitas, que têm importante função para remover excesso de nutrientes da água: prejuízo ao fluxo de embarcações e comprometimento do turismo e do lazer na represa

Do início do século até hoje, a ocupação de plantas aquáticas na Represa de Salto Grande, em Americana, praticamente dobrou de tamanho, formando atualmente uma enorme “mancha verde” de 275 hectares, que prejudica o fluxo de embarcações e praticamente põe fim à balneabilidade de um ponto turístico badalado na região nos anos 80 e 90. A proliferação descontrolada de aguapés é reflexo direto da poluição, já que 260 mil pessoas dos 11 municípios a montante da represa não têm esgoto 100% tratado – as macrófitas se alimentam justamente do nitrogênio e do fósforo descartado irregularmente por empresas e residências através de lançamentos clandestinos de esgoto.

Os dados, inéditos, fazem parte de uma pesquisa contratada pela CPFL Renováveis, que capta energia na represa. O estudo é liderado pelo agrônomo e professor titular aposentado pela Unesp Robinson Antonio Pitelli, chamado no começo do ano para traçar um Raio X do reservatório, afim de apontar caminhos que podem ser seguidos em estratégias para gestão eficiente do reservatório e num plano de manejo estudado pela própria CPFL, além da Prefeitura de Americana e da Cetesb, que planejam uma força-tarefa para reduzir drasticamente o avanço dos aguapés em 2019.

Segundo Pitelli, em 1985 foram constatados os primeiros indícios de macrófitas no reservatório (2,5 hectares). Três décadas depois, a quantidade de plantas aquáticas se multiplicou por 100, e as famosas praias Azul e dos Namorados, que tanto atraíam turistas, convivem atualmente com um cenário de abandono e domínio completo dos aguapés. “É importante destacar que o maior dos problemas não são os aguapés. Eles têm funções importantes, entre elas a remoção do excesso de nutrientes e poluentes da água. O maior problema é a poluição, que gera o aumento descontrolado dos aguapés”, afirma.

São 18 os municípios a montante da represa, mas 12 deles chamam a atenção em especial a Pitelli. Somadas, as bacias hidrográficas que abrangem a represa através destas cidades reúnem uma população superior a 1 milhão de pessoas, dos quais quase 260 mil não têm o tratamento de esgoto adequado. Para Pitelli, é hora de uma união de forças entre prefeituras para reduzir o lançamento clandestino na represa e, assim, reduzir a proliferação dos aguapés.

“Acredito que o mais importante do estudo é o apontamento de que as municipalidades tenham de assumir o tratamento do esgoto corretamente. Não adianta fazer o tratamento secundário como hoje em dia, pois ele livra a matéria orgânica, que é sólida, mas deixa o nitrogênio e o fósforo ali, que são os nutrientes mais importantes para o crescimento das plantas aquáticas”, diz. “Está na Constituição que os municipios devem tratar os seus resíduos de maneira a proteger o meio ambiente. Deverá haver boa vontade de todos”, finaliza o pesquisador.

Pitelli também pede atenção especial da CPFL Renováveis, que, orientada por ele, iniciará neste mês de dezembro uma colheita mecânica otimizada (leia mais nesta página), removendo parte das plantas com máquinas e aproveitando o material biológico como adubo. Outra recomendação, esta que ainda depende de aval do Ministério Público, é a reabertura de suas comportas após três anos, fazendo com que as plantas aquáticas sigam o curso d'água pelo Rio Atibaia sentido Rio Tietê — onde os aguapés não teriam condições favoráveis de sobrevivência e reprodução, sendo “triturados” pelas pedras, ao passar pelo Rio Piracicaba. 

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Renato Piovesan