Publicado 05 de Outubro de 2018 - 5h30

Estas eleições, que terão uma etapa fundamental neste domingo, trazem para os brasileiros um novo sentimento que extrapola a razão e traz elementos novos que sequer foram totalmente assimilados. A polarização das propostas dos candidatos, que saiu da dualidade PT-PSDB que reinou absoluta desde a década de 90, tomou a forma do radicalismo político de uma forma inusitada, figadal, que tem provocado as reações as mais destemperadas, contrapondo ideias e conceitos tão opostos que facilmente caem no confronto pessoal, um fenômeno que ainda carece de estudo e considerações mais profundas.

Uma pista do que pode estar ocorrendo ficou evidenciado em pesquisa divulgada nesta semana pelo instituto Datafolha, que apontou que 68% dos brasileiros admitem se sentir com raiva, índice que chega a 74% entre os que têm entre 16 e 34 anos. Foi apurado também que 79% se declaram tristes — 18% afirmam que estão felizes —, além de mostrar que a maioria demonstra um pessimismo crônico em relação ao País (78%). Quando confrontados entre o medo e a esperança, 59% dizem sentir mais medo. O maior índice é o de insegurança; são 88% os que se sentem inseguros no País, ante 11% que se sentem seguros.

Este mosaico mostra um Brasil em contraste com a imagem de um povo alegre, bem-humorado, pleno de confiança e amistoso. É consequência provável do clima instalado em uma campanha eleitoral marcada por tantas denúncias que vieram com o desmascaramento dos esquemas de corrupção e segue com o confronto direto entre os candidatos. Quando se esperava o cotejo de propostas de governo e possíveis soluções para as crises, os discursos apontam no sentido da radicalização de ideias, na divisão, nos riscos a serem assumidos. A consequência é o pessimismo, a derrota da esperança de que alguma coisa possa ser mudada a partir da vontade cívica de participar e ser protagonista verdadeiro das transformações.

A política é parte intrínseca da vida de todos. Serve para concretar os desejos e crenças, construindo um mundo equilibrado, com a consciência de que o entendimento é a chave para o bem-estar e a justiça social. Quando um processo político se presta a lançar o medo, o pessimismo e a tristeza na sociedade, ele se mostra equivocado, nefasto, contaminado pela intolerância e refratário ao diálogo necessário para o consenso. Este quadro serve apenas àqueles que estão vazios de propostas, mostram-se inflexíveis e alheios aos verdadeiros valores da democracia, que é fundamentalmente o respeito às diferenças.