Publicado 04 de Outubro de 2018 - 5h30

Bendito seja o sol laranja que está brincando feito menino pelas quebradas da cidade, bulindo no topo das casas, inventando arco-íris nas lagoas e poças de água.

Bendito seja o menino que governa o vento com a sua pipa corajosa, que mais parece uma águia suburbana planando sobre os tetos humildes de barracos descoloridos e tristes. E abençoada seja a mãe ainda nova que puxa um filho pela mão e carrega outro na enorme barriga, enquanto equilibra uma sombrinha de varetas tortas e de quase nenhuma serventia.

Bendita seja a sopa de macarrão prontinha para a ceia da madrugada, o naco de pão fresco, a lâmina de manteiga na mesa e o brilho suave das velas no castiçal de prata.

Abençoado seja o bicheiro da esquina que deseja sorte ao apostador e sempre reclamando do azar do palpite nem tão certeiro assim, que os bichos são poucos e muitos são os números e os sonhos de uma milhar seca e definitiva.

Bendito seja o time que perdeu o campeonato e a gente precisa se sentar um pouco pra comentar a partida e se gozar um pouco, que o futebol sempre será alegria e descompromisso. Para que tanta briga, meu Deus!, jovens se agredindo por conta de uma brincadeira tão séria como muito séria são as suas vidas, seus músculos, nervos e sangue.

Benditos sejam os netos crescendo e o caçulinha batendo firme de direita e esquerda, cracão de bexiga, e já aprendendo a reclamar do maldito trânsito, o que faz envergonhar o avô, o tio ou mesmo o velho taxista.

Bendita seja a bala de mel que quebra o queixo e faz a água da boca despencar numa cachoeira de prazer; bendito seja o sorveteiro que mesmo suado e cansado ainda tem alegria em nos servir uma pequena dose de frescura; o pipoqueiro e o homem que inventou apito de chamar a infância; e mais ainda abençoado seja o vendedor de biju, rolando a sua matraca...

E abençoadas sejam as casas amplas e iluminadas, com seus muros baixos e jardins de rosas e margaridas, muitas ainda com janelas abertas e com a televisão ligada na novela preferida — e dela ainda sai um aroma de feijão temperado com alho, cebola e linguiça.

Bendita seja a vontade do amigo que está pensando em comprar um bom pedaço de lombo e uma garrafa de vinho pra ficar zonzinho de alegria ao lado da companheira perfumada com talco ross, tão linda em seu pegnoir azul — celeste que sugere uma nudez cósmica e enluarada.

Bendito seja o ar, embora seco e empoeirado, mas que aceita uma doçura de vento, um beijo de brisa e um frescor de murta.

Benditas sejam as crianças e os velhos, todos se carregando pelas mãos, confiantes e cúmplices pela boa e sincera vida que levam pelas calçadas da cidade.

E abençoado seja o sabiá pulando na antena e voando para o telhado vizinho; e o beija-flor que se lambuza nas águas açucaradas das varandas dos prédios, nas flores das praças e quintais carregados de mangueiras, pitangueiras e jabuticabeiras. E abençoados sejam todos os quintais, mais ainda os cimentados e ladrilhados, estéreis e impermeáveis, pois também eles merecem nossa compaixão.

Bendito seja o padrinho que nunca teve preguiça de carinho; que sempre se fez presente mesmo em dias sem graça, sol ou festa.

E abençoado seja o amigo; porque amigo e apenas isso.

E mais abençoados sejam os inimigos que nos servem de norte moral para as nossas decisões. Ou indecisões. E abençoados sejam todos os homens que desejam governar nossas vidas simples; uns são tolos, outros mais ainda, mas todos são abençoados pela santa democracia que tudo vê e julga; e igualmente abençoados os abnegados que se entregam ao escarro de seus inimigos intolerantes e soberbos em seus sonhos de poder absoluto.

Finda a oração, bebo à saúde dos homens e mulheres que enfeitam as cidades com as suas paixões, de braços dados e caminhando devagar, esbanjando beijos e afagos, em franca e solene exibição de felicidade. Eles, sim, são os meus candidatos preferidos para alegrar a mi nha e a vida e todos os bons brasileiros. Amém.

Bom dia.