Publicado 04 de Outubro de 2018 - 15h50

Por AFP

A anulação do indulto ao ex-presidente peruano, Alberto Fujimori, reacendeu a guerra entre seus filhos, Keiko e Kenji, que disputam seu legado político.A Suprema Corte anulou na quarta-feira o indulto e ordenou que o ex-chefe de Estado (1990-2000) volte para a prisão depois de dez meses de liberdade, após o que deu entrada em uma clínica de Lima, onde permanece nesta quinta-feira.Apesar de ter sido condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção, Fujimori continua desfrutando de alta popularidade no Peru por ter acabado com o terrorismo do grupo Sendero Luminoso e a hiperinflação. Esse legado é disputado por seus filhos, pois ambos querem ser presidentes.A clínica se tornou, assim, uma espécie de grande teatro, onde os peruanos contemplam um drama shakesperiano, protagonizado por dois irmãos que choram pela anulação do indulto.É que a luta fratricida entre Kenji (38 anos) e Keiko Fujimori (43) parece uma versão andina de "King Lear", a tragédia de William Shakespeare sobre o legado de um monarca aos seus herdeiros. Neste caso, a herança é o capital político do fujimorismo, primeira força eleitoral do Peru.O cisma no fujimorismo foi selado em junho quando o partido que Keiko lidera - e que domina o Congresso - conseguiu tirar o assento parlamentar de Kenji, que se opôs à cruzada de sua irmã para destituir o então presidente Pedro Pablo Kuczynski, que renunciou em março.Os dois irmãos, que poderiam se enfrentar nas eleições presidenciais de 2021, choraram após a anulação do polêmico indulto que Kuczynski concedeu ao seu pai, de 80 anos, na véspera do último Natal.Mas um ex-advogado do ex-presidente descendente de japoneses declarou que as lágrimas de Keiko chegaram tarde, pois foram as próprias ações que ela empreendeu por ambição política que levaram à anulação do indulto.A mesma advertência tinha sido feita por Kenji em maio, quando disse que se o indulto fosse anulado, seria por culpa do partido Força Popular, de sua irmã, que ele mesmo ajudou a fundar em 2011 e do qual se afastou em fevereiro passado.A escalada bélica do partido de Keiko - primeiro contra Kuczynski e depois contra Kenji - "tornava irremediável derrubar o indulto", destacou o advogado César Nakazaki."É uma cadeia de fatos", acrescentou o advogado, após destacar que "era impossível derrubar Kuczynski" e expulsar do partido dez legisladores leais a Kenji sem que o indulto desmoronasse.Keiko "deveria ter quebrado antes", acrescentou Nakazaki a respeito das lágrimas da poderosa líder opositora perante a imprensa.- Aposentado da política -Kenji também previa esse desenlace e o tinha advertido à irmã em maio."Se o meu pai voltar à prisão, nunca perdoarei a Força Popular", havia declarado o caçula do clã, afirmando que a "turbulência política" pela "disputa do poder" no partido de Keiko poderia derrubar o indulto.Kenji foi o promotor do indulto e para consegui-lo, apoiou Kuczynski. Sua irmã não fez nada para consegui-lo por medo de que seu pai disputasse a liderança do partido, afirmam analistas.Após deixar a prisão, Fujimori retirou-se para escrever suas memórias e se declarou aposentado da política, embora tenha mantido seu empenho em reconciliar seus filhos.- Disputa familiar -Kenji surpreendeu em 21 de dezembro quando, à frente de 10 legisladores fujimoristas leais a ele, salvou Kuczynski de ser destituído pelo Congresso.Assim, rompeu a unidade monolítica do fujimorismo e despertou a ira de sua irmã, que mantinha encurralado Kuczynski desde que este assumiu, em julho de 2016.Três dias depois, Kuczynski indultou o ex-presidente. Todos interpretaram o ato como um pagamento a Kenji por seu apoio crucial no Congresso.Em março, um suplente de Keiko acusou Kenji de negociar votos para frustrar uma nova moção de vacância presidencial. Isso gerou um escândalo e levou à renúncia de Kuczynski.Em junho, o Congresso suspendeu Kenji como parlamentar por negociar indevidamente votos para Kuczynski.Keiko era a política mais popular do país, mas nos últimos dois meses seu apoio caiu para 11%, após suas disputas com o presidente Martín Vizcarra, o sucessor de Kuczynski.Aparentemente ela calculou que encurralar Vizcarra lhe daria créditos políticos, como tinha ocorrido com Kuczynski, mas o tiro saiu pela culatra.

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