Publicado 10 de Agosto de 2018 - 15h33

Por Rogério Verzignasse

CULTURA ||| LEITURA

Juiz já doou 190 mil livros na praça

Para magistrado aposentado, campanha é retribuição ao povo, que lhe pagava o salário

Vida universitária

começou depois

dos 30 anos

Rogério Verzignasse

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Natural do Alto Minho, norte de Portugal, filho de pais humildes, Francisco Fernandes de Araújo se mudou para o Brasil aos 14 anos. Mas não teve tempo de curtir a mocidade. Começou a trabalhar muito cedo. Deu um duro danado para pagar a faculdade de Direito. Depois, aprovado em concurso público, ele trabalhou como juiz por 17 anos. Hoje, aos 81 anos, aposentado, ele passa o tempo escrevendo livros de crônicas e pensamentos, que são distribuídos de graça em praça pública. Desde 2007, ele já distribuiu nada menos que 190 mil livros. As campanhas geralmente acontecem no Largo do Rosário.

Para ele, doar livros é o mínimo que ele pode fazer pelo povo que pagou impostos e garantiu seu salário, a vida toda. Detalhe. Ele mesmo assume os custos da edição e da distribuição dos exemplares. Usa o que ganha de aposentadoria. E o cidadão “semeador de livros” - como ele mesmo se apresenta no título da autobiografia - faz sucesso até em estados distantes. As “encomendas” são feitas por fãs que ele conheceu nas redes sociais. Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Correio Popular:

Correio Popular – Dr. Francisco, o senhor ficou muito conhecido pelas campanhas de distribuição de livros na cidade. Além de juiz, virou escritor. Quantos títulos já publicados?

Francisco Fernandes de Araújo – Só 103. Crônicas, pensamentos, romances, documentários históricos, biografias… De tudo um pouco. Para todos os gostos. A maioria escrita depois da aposentadoria, lá em meados da década de 90.

Tudo distribuído de graça? Quando começaram as campanhas nas praças?

A primeira foi em 1997. Não parei mais. Sempre fiz uma por ano. A partir de agora, farei duas campanhas anuais. E sempre de graça. Foi uma forma que encontrei de devolver o que ganhei do povo. Fui advogado por sete anos, juiz por outros 17. E sabemos: o juiz ganha bem. E o povo é quem paga, com seus impostos. Hoje estou aposentado, não tenho mais direito a pendulicários. Mas a pensão é digna. Não é por causa do dinheiro gasto com os livros que vou me apertar.

Mas quanto o senhor gasta para publicar um livro?

Em média, cada exemplar custa R$ 4,00 na gráfica. São dez mil volumes por edição. Logo, R$ 40 mil gastos por título. Mas as despesas não param aí. Alugo tendas, contrato pelo menos sete funcionários por campanha, espalho mesas e cadeiras na praça… O gasto é alto. Mas compensa. O prazer que eu sinto é imenso. Já distribuí 190 mil exemplares na praça.

E o que levou o senhor a escrever de graça para o público? Pensa em influenciar cabeças, mudar comportamentos?

Nada disso. Meu único objetivo é incentivar a leitura, a busca por conhecimentos. Na vida, você vence se estudar ou ganhar na loteria. Ganhando na sorte grande, você pode fazer um investimento ruim e perder tudo. Estudando, o conhecimento é seu para sempre. E eu mesmo fui um exemplo disso. Pobre, estudei demais, me formei, trabalhei, comprei minha casa, tenho meu carro, vivo bem com minha mulher. Todo mundo pode conseguir. E acho que incentivando a leitura eu ajudo de alguma forma.

A paixão pela leitura veio desde cedo? O senhor foi incentivado pelos pais? Teve acesso aos grandes autores desde menino?

Minha família era muito humilde. Eu nasci lá no Alto Minho, norte de Portugal. Mas meus pais eram lavradores. Eu tive de começar a trabalhar muito cedo. Criança ainda. Trabalhei até como carvoeiro no Porto. Quando tinha 14 anos, meu tio me convidou para morar com ele em São Paulo. Minha mãe concordou na hora. Era uma boquinha a menos para comer. Afinal, eram sete irmãos. Todos homens. Aqui, fui balconista, entregador de pizza, faxineiro da padaria. Vida dura. Sempre. Aí eu vi que precisava estudar,. ler muito para mudar de vida. Aí fui crescendo. Virei escriturário, bancário, fiz Direito. Sempre estudando, lendo sem parar.

Como Campinas passou a fazer parte de sua história?

Eu era funcionário de um banco na Capital. Mas fui transferido para cá quando para um serviço temporário. Devia ficar dois meses. Mas amei a cidade e não saí mais. Detalhe: quando cheguei, já era um homem casado, e não tinha curso superior. Tive de fazer Madureza, supletivo do passado, para compensar o tempo que fiquei fora da escola porque tinha de trabalhar. Aí entrei na PUC, retomei a vida de estudante. E, depois de sete anos como advogado, prestei concurso público e me tornei juiz.

Aí o senhor finalmente conseguiu a estabilidade…

Trabalhei em todas as varas de Campinas, ajude a instalar todos os equipamentos do Judiciário em Valinhos. Passei por Presidente Prudente, Socorro, Votorantim, José Bonifácio… Me oferecia para assumir cargos. Queria crescer. Aprender. Mas, veja só, consegui ter minha casa própria em 1990. Antes pagava aluguel. E não quero mais nada. Vou morrer nesta casa. O dinheirinho que sobra eu uso para viajar. Sou muito agradecido a Deus pela vida que tenho.

Quem são os seis leitores? Todos de Campinas?

De Campinas e de fora. As redes sociais chegaram para mudar o mundo. Eu mando livro até para meus amigos do Facebook. Lá do Maranhão, lá de Minas, do Brasil todo. Mas a distribuição de livros hoje é diferente. Antes eu deixava em bancos do shopping ou saía entregando. Hoje não. Ganha o livro quem vem buscar. Eu mesmo tento ter certeza de que o cidadão vai ler, vai aproveitar. Eu quero leitor interessado.

O senhor continua sendo um leitor inveterado, mesmo depois de aposentado?

Muito. Fiz meu mestrado depois de aposentado. O doutorado também. Não paro de ler nunca. As pessoas precisam descobrir esse prazer.

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Rogério Verzignasse