Publicado 12 de Agosto de 2018 - 5h30

Apesar da queda do consumo de cerveja no País nos últimos três anos, o número de fabricantes, marcas e rótulos da bebida se multiplicou - e o setor conseguiu criar vagas suficientes para recompor o quadro de funcionários que tinham antes da recessão econômica.

Por trás desse aquecimento está o fenômeno das cervejas artesanais, que vêm conquistando cada vez mais novos empreendedores - e consumidores. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o número de cervejarias deste tipo registradas no Brasil cresceu 91% nos últimos 3 anos, saltando de 356 em 2014 para 679 em 2017 - foram 186 novas unidades só no ano passado.

Essa boa fase do mercado cervejeiro tem se refletido na economia da região. A Cervejaria Campinas, por exemplo, está em plena expansão, e abriu no mês passado sua segunda unidade no Swiss Park apostando na mudança cultural do consumidor.

“O grande desafio para as cervejas artesanais é cair no gosto do grande público e conseguir um volume de produção que permita ter um preço competitivo”, disse um dos proprietários da marca, Ladir Almada Neto. Ao lado dos sócios Carlos Alberto Colombo e João Paulo Colombo, eles avaliam que, com o aumento também do número de estabelecimentos, o consumidor pode experimentar as marcas sem ter que gastar muito mais por isso.

“Quanto mais o preço da cerveja artesanal se aproxima dos preços de mercado das grandes marcas, mais pessoas se dispõem a conhecer o nosso produto”, disse Neto. Outro fator que, segundo ele, contribui para o crescimento das cervejarias artesanais na Região Metropolitana de Campinas é o conceito “beba local” - uma campanha informal de valorização da produção feita na cidade ou na região. “Com isso, conseguimos ampliar cada vez mais o mercado local, trazendo ainda mais novidades e com preços cada vez mais acessíveis”, explicou.

Sucesso rápido

O reconhecimento da Cervejaria Campinas veio rápido, com a premiação de uma das criações da marca, a Forasteira, que conquistou o 3 lugar entre mais de dois mil rótulos de 390 cervejarias de todo o Brasil.

“Tínhamos pouco mais de um ano de mercado e esse resultado mostrou que produzíamos uma cerveja artesanal de excelente qualidade”, lembra Neto. Hoje, a fábrica que tem dois anos e um mês, emprega 25 pessoas e deve chegar em breve a produzir 35 mil litros por mês.

Cliente fiel da marca, o analista de sistemas Mark Nasravi, de 29 anos, levou os amigos para fazer um happy hour na cervejaria. “O espaço oferece dezenas de opções de qualidade, com muita tranquilidade e atendimento personalizado. Muito diferente de um bar”, disse.

Ciganas

As “ciganas” - como são conhecidas as microcervejarias - também estão crescendo em ritmo acelerado, entre 30% a 40% ao ano no País. São marcas que não têm fábricas e operam no formato “tap house” - uma espécie de vitrine, com balcão e torneiras.

A Cervejaria Artesanal Daoravida se enquadra entre as “ciganas”. A marca surgiu de maneira despretensiosa, criada por Wagner Falci e Michele Gimenez. Agora já com cinco anos na atividade, Falci conta que começou a fazer cerveja no apartamento de 50m² em que moravam. A “produção” era oferecida apenas para os amigos - mas o sucesso da bebida entre eles os estimulou a dar um passo maior: o casal passou a produzir mais cerveja na casa de um daqueles clientes iniciais, a família Stenico - que além de disponibilizarem o local, também passaram a ajudar na produção. Em 2015, a Daoravida entrou definitivamente no mercado de cervejas artesanais, e atualmente produz cerca de cinco mil litros por mês.

"Como cervejaria cigana, queríamos um espaço que permitisse uma maior proximidade com os consumidores. E também precisávamos ampliar o espaço de estocagem”, diz Falci. O espaço fica no Taquaral e foi inaugurado no final de junho.

Diversos rótulos

Além das produções locais, crescem também em Campinas os estabelecimentos que comercializam cervejas artesanais feitas em várias partes do mundo.

Um deles é o Rock In Hop, inaugurado há duas semanas no Cambuí. Aberto pelos sócios Cristiano Egla e Guilherme Franz, o espaço traz 20 torneiras de dezenas de fabricantes mundialmente famosos, como Three Monkeys, Fullers e a Mea Culpa (esta última fabricada em Cotia). A dupla tem planos de, em breve, começar sua própria produção.

O espaço é confortável e petfriendly - ou seja, o espaço para animais de estimação. “Uma das novidades é uma régua onde o cliente pode escolher cinco tipos de cerveja no formato de 100 ml. Uma das que tem mais saída é a Three Monkeys, que leva pitaya e goiaba” , conta Cristiano.

Já em latas, são mais de 180 rótulos. “É todo um mundo para se experimentar, e um mercado que atrai cada vez mais mulheres. Elas já são 40% dos consumidores de cervejas artesanais”, diz.

Mais cervejeiros

Um levantamento preliminar da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) mostra que o número de contratações cresceu no setor - as cervejarias com menos de 100 funcionários geraram 723 novos postos de trabalho de janeiro a novembro de 2017.

E o avanço das artesanais parece estar sendo um bom negócio tanto para os novos empreendedores quanto para as gigantes do setor, que também passaram a apostar em receitas especiais e nas aquisições (a cervejaria Colorado, por exemplo, foi comprada em 2015 pela Ambev).