Publicado 11 de Agosto de 2018 - 19h05

Certamente, a ditadura de 64, revolução, golpe, movimento militar, ou, até, “ditabranda”, como a classificou, em editorial, a Folha de S. Paulo, gerou muitas situações trágicas, outras nem tanto e até algumas francamente cômicas. Entre estas, pra mim, uma das mais emblemáticas ocorreu, nos dias do AI-5, na linda praia da Atalaia, próxima à cidade de Salinópolis, no litoral atlântico do Pará, à época da construção de uma ponte que a liga, hoje, ao continente. É que então, com a perspectiva de fácil acesso ao local, começaram a ser liberadas licenças para a construção de barracas que seriam botecos na areia. E um modesto comerciante passou a trabalhar para erguer o seu.

Foi no segundo dia das escavações na areia para a colocação dos pilares de madeira, que a enxada do bom homem bateu em algo estranho. Com tranquilidade e jeito, logo descobriu que se tratava de grossa, enorme corrente. Cavando mais, apareceu uma âncora. Logo, com a ajuda de terceiros, surgiram sinais de que ali poderia estar enterrada velhíssima embarcação.

Tudo, afinal, talvez tivesse se esgotado nisso mesmo não fosse a presença, em Salinópolis, de um diplomata brasileiro nascido no Pará, lotado em Londres, que se encontrava em férias. Passeando na praia, viu o buraco e foi informado do que nele encontraram. Então, subitamente, teve a ideia de gozador: voltando à cidade pegou algumas moedas divisionárias inglesas na carteira, levou à padaria, o ponto das fofocas, e contou que as tinha encontrado nas escavações, e que eram muito antigas, precisavam ser levadas para avaliação na Europa. No dia seguinte, viajou.

Em menos de 24 horas se espalhou, por todos os cantos, que o que estava enterrado na praia era um velho galeão de piratas espanhóis do século 17, carregado de moedas de ouro. Informado, o prefeito arregalou os olhos. E colocou no local uma guarda: três fortes peões da Limpeza Pública.

Mas, como disse no começo, a ditadura andava firme e alguém achou que o mais prudente seria dar conta ao comando do Exército, em Belém, sobre o que havia sido encontrado. E a reação foi rápida: imediatamente chegou da capital um grupo de guapos soldados da PM. Que se incumbiu de providenciar cordão de isolamento em torno do buraco, para que as escavações, paralisadas, recomeçassem.

Agora, surpresa mesmo todos tiveram dois dias depois ao entrar na enorme praia um caminhão da Marinha de Guerra, para lá levado em balsa. E como o litoral brasileiro está sob a guarda e responsabilidade da Armada, esta mandou, para preservar os restos do barco que ainda não aparecera, um destacamento de fuzileiros navais. Que montou barracas nas dunas próximas, com forte armamento. Inclusive metralhadoras.

Enquanto o trecho da Atalaia se transformava numa autêntica praça de guerra, instalaram em Salinas uma espécie de quartel general que discutia sob a responsabilidade de quem seguiriam as escavações.

— Como os restos podem ser de um galeão espanhol dos séculos 17 ou 18 – disse um – entendo que tudo deve ser feito apoiado pelo Instituto Histórico e Geográfico.

— Mas a responsabilidade do que se encontra ao longo do nosso mar territorial – saltou um tenente – deve ficar com a Marinha de Guerra.

— Mas o Exército é que comandará tudo – outro tenente levantou o indicador – para que o tesouro de moedas de ouro não caia nas mãos dos subversivos. Que poderão comprar armas!

Finalmente decidiram que uma comissão formada por representantes de cada uma das entidades presentes, dirigiriam as escavações, agora pomposamente chamadas de “iniciativa para a recuperação de objetos de inestimável valor histórico”.

Na luminosa manhã em que as pás e enxadas voltaram a remover a alva areia, a coisa se revestiu de autêntica solenidade. Para espanto das garças, maçaricos e gaivotas que por ali habitavam há séculos, até alguns foguetes explodiram. E, nos primeiros botecos da área, já diziam que o que seria encontrado era um “tesouro muito maior do que o do Conde de Monte Cristo”.

Bom, só que a frustração, afinal, não custou a se caracterizar. Pois o achado nada mais era do que a carcaça de velho barco de pesca ou cargueiro, antigão mas comum, perdido por ali só os deuses poderiam dizer quando e como. Porém, o pessoal do Exército, instalado num dos únicos hotéis da cidade, resolveu ir em cima do pobre comerciante a que me refiro no início desta saga, aquele que deu a primeira enxadada para abrir o buraco onde enfiaria os pilares de madeira do seu boteco. Levado à frente de um capitão, este logo perguntou: “E o tesouro”?

— Que tesouro?

— Acharam moedas de ouro no local.

Mas o absurdo da situação, afinal, fez com que, entre mortos e feridos, se salvassem todos. Os restos da embarcação encontrada sob as dunas, até para não dizerem que nada foi feito, acabaram sendo levados para Belém, rotulados como de um “barco do século 17”. Depois sumiram, provavelmente em algum lixão. Em Salinas, mesmo, ficaram a grossa corrente e a âncora. A primeira enfeita, até hoje, a biboca do comerciante que esteve a ponto de apanhar dos milicos. A segunda orna o vistoso jardim de um ex-prefeito. Quando alguém pergunta do que se trata, ele costuma responder, sério:

— É âncora histórica. Pertenceu a uma das caravelas de Pedro Álvares Cabral.

Muitos acreditam.