Publicado 11 de Agosto de 2018 - 19h05

Dirigido por Gabriela Greeb, o documentário Hilda Hilst Pede Contato apresenta uma imersão na vida e obra de Hilda Hilst a partir de gravações inéditas deixadas pela própria escritora, que entre 1974-1979 tentou comprovar a imortalidade da alma registrando vozes de pessoas mortas. Filmado na Casa do Sol, chácara onde Hilda morou, em Campinas, de 1966 até sua morte em 2004, e com a participação de amigos íntimos da escritora, o documentário também inclui intervenções poéticas e realidades paralelas. O fio condutor da narrativa é um jantar póstumo na Casa do Sol, de Hilda com seus amigos. O filme, que teve avant première na Festa Literária Internacional de Paraty no dia 26 de julho, está em cartaz em Campinas, no circuito comercial.

A personagem da escritora, interpretada por Luciana Domschke, é construída a partir de registros sonoros da época em que Hilda tentava, por meio de experimentos eletromagnéticos, entrar em contato com amigos e escritores já falecidos. Toda a narrativa é construída a partir da voz da própria Hilda, em primeira pessoa, e dublada pela atriz.

O filme conta com material de arquivo inédito: cinquenta rolos de super 8 com 100 horas de gravações, realizadas entre 1974 e 1979, em que Hilda seguia as regras dos experimentos realizados pelo cientista sueco Friedrich Jurgenson, considerado por muitos o pai da EVP (Eletronic Voice Phenomenon).

No elenco do filme, além da Luciana Domschke no papel de Hilda, estão amigos da escritora como Alcir Pécora, Dante Casarini, Eliane Robert Moraes, Fernando Lemos, Gutemberg Medeiros, Jorge da Cunha Lima, Jurandy Valença, Leandro Carlos Esteves, Leusa Araujo, Maria Lucia Cacciola, Maria Luiza Mendes Furia e Olga Bilenky.

Em entrevista para o material de divulgação do filme, a diretora Gabriela Greeb conta que a ideia para a obra veio do herdeiro de Hilda, José Luís Mora Fuentes, que viu seu filme A Mochila do Mascate, documentário poético sobre a vida do cenógrafo e diretor teatral Gianni Ratto e pediu um filme sobre a escritora: “Eu não sou exatamente uma documentarista, quando fiz o filme sobre o Ratto ele estava vivo, então pensei: ‘Como eu ia falar dela? Ela estava morta. Fui até a Casa do Sol para encontrar Mora Fuentes, e saber, por ele, quem era Hilda. Ele me mostrou a casa. No quarto dela vi uma caixa de papelão com as fitas cassete, todas emboladas. Eu senti que o filme estava lá dentro. Ouvi as fitas, sua voz. Descobri ali uma maneira dela falar por si mesma, na primeira pessoa. Pensei em inverter a situação original das fitas: ela era o morto que queria se comunicar com os vivos, e provar sua eternidade.”

A cineasta observa que “um documentário biográfico, mais do que falar sobre uma pessoa, é trazê-la para a tela, para o presente. O filme não deve estar entre o personagem e o público, mas ser um canal entre eles.”

Transgênero

Para Gabriela, Hilda Hilst Pede Contato nem é propriamente um documentário nem uma obra de ficção: “Eu me perguntava como fazer um filme sobre uma escritora genial e morta. Ouvi as fitas e ouvi a voz dela. O que mais você quer além da voz do poeta? Imagem bonita eu sei fazer, isso não é um problema, mas trazer uma verdade, isso sim é um problema. Por isso que quando me perguntam se é documentário ou é ficção, eu digo que é trans. Como a obra dela. Transgênero.”

A diretora destaca que a voz de Hilda, eternizada nas fitas magnéticas e agora em arquivo digital na obra cinematográfica, “é muito especial, parece uma atriz dos anos 50, uma voz empostada.”

“E todo este material é inédito”, destaca Gabriela Greeb, “todas as coisas que ela fala são inéditas. Ela busca contato também com outros escritores, Camus, Clarice Lispector, Cacilda Becker, Kafka. Tem uma hora que ela fala ‘Cacilda Becker, você ainda não se lembra de mim?’. Ela traz um lado pessoal, íntimo, irônico. (Da Agência Anhanguera)