Publicado 13 de Agosto de 2018 - 5h30

Campinas é o terceiro município com maior número de fertilizações in vitro no Estado de São Paulo. A informação é do relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). São Paulo lidera o ranking com 58% dos procedimentos, seguida por Ribeirão Preto, com 16%, e Campinas, 9%. O Estado é também o que lidera os procedimentos realizados de 2017, seguido de Minas Gerais e Rio de Janeiro, respectivamente. Ao todo, foram 16.357 procedimentos efetivados em todo Estado ao longo do ano passado, contra 15.191 em 2016 – um aumento de 8% em relação aos dois períodos. Os dados das cidades paulistas correspondem a 45% dos registros no Brasil. Em âmbito nacional, foram 36.307 procedimentos feitos em 2017, contra 33.790 em 2016, o que corresponde a um aumento de cerca de 7%.

Além da Anvisa, dados do Ministério da Saúde apontam também que o número de mulheres que foram mães após os 40 anos subiu 49,5%, nos últimos 20 anos.

As estatísticas mais atualizadas são de 2015 e mostram que 72.290 dessas mães tinham entre 40 e 44 anos e outras 4.475 estavam na faixa etária dos 45 aos 49. Houve ainda 373 brasileiras que se aventuraram na maternidade após os 50 – entre elas, 21 já eram sexagenárias quando deram à luz.

Segundo Flávia Torelli, ginecologista e especialista em reprodução assistida do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a maior procura pela fertilização in vitro se deve à mudança no perfil da sociedade.

“É um assunto que vem sendo cada vez mais debatido em jornais, rádio, televisão e também em redes sociais, já que muitas mulheres que querem engravidar estão buscando participar de fóruns e comunidades virtuais com o intuito de buscar uma ajuda e se informar melhor sobre o assunto”, explicou.

Para ela, Campinas é uma cidade que registra uma procura muito alta de pessoas interessadas no tratamento, por dois motivos. “É uma cidade de grande porte e com um polo tecnológico imenso. Voluntariamente, ela atrai muitas pessoas por conta disso. Muitas pessoas que moram em cidades próximas, preferem, inclusive, fazer o procedimento aqui do que ir a São Paulo, por exemplo”, comentou.

A especialista ainda destacou que o número de mulheres com 40 anos ou mais em busca da técnica de reprodução em laboratórios tem relação direta com a evolução da tecnologia. “A fertilização in vitro, assim como toda a medicina, evoluiu muito desde o primeiro procedimento realizado com sucesso há 40 anos. Antes apenas 5% das pacientes conseguiam engravidar e hoje esse índice já atingiu mais de 50% de eficácia. O que temos visto é que, por conta disso, a procura por mulheres acima dos 40 anos que enxergam na medicina a possibilidade de realizar o sonho de ter um filho é muito grande”, relatou.

Técnica

A técnica de fertilização em vitro consiste em fertilizar o óvulo de um paciente em um ambiente de laboratório, fora do corpo da mulher. O tratamento é uma opção para casais inférteis que desejam ter filhos.

Para realizá-lo, o casal precisa passar por alguns exames. A futura mãe, por exemplo, faz avaliação hormonal, ultrassonografia e histeroscopia, para conferir útero, trompas e ovário. Já o pai passa por um espermograma para saber a quantidade e a qualidade de seus espermatozoides. Também há testes de doenças infecciosas ou sexualmente transmissíveis.

Feito o diagnóstico, a mulher passa a se aplicar injeções com doses diárias de hormônios, enquanto os exames de ultrassom acompanham o crescimento dos folículos (uma espécie de bolsas onde ficam os óvulos).

Depois, os espermatozoides são adicionados aos gametas femininos para que um deles consiga fecundar o óvulo. Após a fertilização, o embrião é mantido em uma incubadora, onde começa a divisão celular. Após aproximadamente cinco dias, o embrião é enfim colocado no útero da mulher.

Filha e sobrinha podem servir de barriga de aluguel

Em novembro do ano passado, o Conselho Federal de Medicina (CFM) atualizou as normas para a utilização das técnicas de reprodução assistida no Brasil por meio da Resolução CFM n 2.168/2017, permitindo que familiares em grau de parentesco descendente possam fazer a cessão temporária do útero (gestação de substituição).Até então, de primeiro a quatro graus, somente mãe, avó, irmã, tia e prima podiam ser barriga de aluguel, como o procedimento é popularmente conhecido. Com a mudança na regra, filha e sobrinha também passaram a poder ceder temporariamente seus úteros. Pessoas solteiras também ganharam o direito a recorrer a cessão temporária de útero. “Um homem solteiro que queira ter um filho, tem essa opção”, informou a presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Hitomi Nakagawa.Outra alteração da resolução foi a redução de cinco para três anos o período mínimo para descarte de embriões. O critério vale tanto por vontade dos pacientes quanto em casos de abandono, quando as clínicas de fertilização não conseguem mais localizar os responsáveis pelo material. A alteração no prazo segue as normas da Lei de Biossegurança, que prevê a utilização de embriões congelados há três anos ou mais para pesquisa.Além das mudanças, o texto ainda inclui definições que não estavam previstas em resoluções anteriores, como o conceito de gestação compartilhada, e permite que questões sociais sejam consideradas na avaliação médica para utilização de reprodução assistida.De acordo com o CFM, a opção de gestação compartilhada já contemplava casais de união homoafetiva feminina. No documento, considera-se que os casos que se enquadram nesta situação são aqueles em que o embrião obtido a partir da fecundação de óvulos de uma mulher é transferido para o útero de sua parceira, ainda que não exista diagnóstico de infertilidade.Segundo o diretor da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Adelino Amaral, estudos indicam que a gestação compartilha gera um comportamento familiar mais harmônico entre as mulheres homoafetivas, em comparação com aquelas famílias onde a mulher faz a gestação do próprio óvulo fecundado. “Temos um percentual grande de casais que procuram pelo procedimento. Isso é um aspecto relevante para as questões psicológicas e harmonia familiar”, disse.Planejamento familiar

A resolução também introduziu o conceito de preservação social e permitiu que pessoas sem problemas reprodutivos diagnosticados possam recorrer às técnicas de reprodução assistida, como congelamento de gametas, embriões e tecidos germinativos. A prática também já existia, mas se regulamentação. Segundo o CFM, permitir que os indivíduos planejem o melhor momento de terem filhos reflete as mudanças de comportamento da sociedade. “Sempre olhamos o direito e autonomia da mulher ao procurar a reprodução assistida. Mais de 30% das mulheres estão acima dos 30 anos de idade e devido a situações de trabalho, por exemplo, recorrem a reprodução assistida porque demoram a planejar a gravidez”, explicou o conselheiro José Hiran Gallo, coordenador da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do CFM.Pacientes com doenças ou que se submetam a tratamento que podem levar à infertilidade também são contemplados com a medida, como pacientes em tratamento oncológico.