Publicado 12 de Agosto de 2018 - 5h30

A Ponte Preta nasceu quando o Universo se arrebentou em luzes astronômicas, há bilhões de anos. As forças cósmicas anunciaram um jogo entre o Tempo e o Não-Tempo. Foi um jogo acontecido a bilhões de anos-luz da mais próxima galáxia. E tudo o que havia era uma regra: o nascer de novas leis, a gravidade, o peso atômico, a velocidade da luz, do som, e toda uma sequência de evoluções. E foi assim, nesse primeiro jogo, que nasceu um treco redondo que, bilhões de séculos mais tarde, foi definido como esfera e, séculos depois, apelidada de bola, pelota, gorduchinha e, supremo substantivo, de pombo sem asa.

Não há nada no Universo que inexista em nossas células. Somos todos nós resultados das memórias da criação. Uns falam Deus, outros falam Ciência, eu digo Ponte Preta. E também todos os nomes dos homens que foram meus ancestrais, cada um participando das razões dos meus neurônios, desde aqueles velhíssimos tempos do início do Universo.

Quando o Universo foi criado, nasci também. Todos nós nascemos naquele momento. Somos feitos de gases, proteínas, vitaminas e sais minerais. E por alguma razão fomos criados para sentir prazer pelo pensar e amar; e, portanto, para as perdas existenciais e materiais.

Vezes há em que sonho com dinossauros e um deles reflete minha passada vida. O que não quer dizer que ainda não tenho um RG de dinossauro. Mas tenho ainda essa capacidade de amar e sentir saudade. É coisa antiga, sei, mas é tudo o que tenho para levar pelos tempos.

O meu confrade Ariovaldo Isaac, competente jornalista esportivo, num certo dia de anos atrás escreveu que a Ponte Preta não tinha sido fundada em 1900. E lá tinha suas razões jornalísticas, idade dos fundadores, o mito dos novos torcedores e outras paixões. Faltava documento, enfim. E agora sabemos de um convite endereçado ao vereador Thomáz Alves (hoje nome de uma das mais simpáticas ruas do centro da cidade), datado de 1901, comunicando-lhe para comparecer ao primeiro aniversário do clube.

Tanto se me faz a Ponte Preta provar que tem tantos e tantos anos. Sei apenas que desde que o mundo é mundo, bem antes até mesmo do Universo, ela já existia em células ponte pretanas. E é nisso que eu acredito, assim como devo crença ao oxigênio, à água, ao pão e ao velho e amado sol. E a Nega Véia será sempre a mulher que deverei amar pelos tempos da minha carne, e, mesmo morto, os átomos que passaram pelos meus pulmões serão aspirados por novos pulmões. É assim que os ponte-pretanos resistem. É assim que a bola rola, é assim que a mais singela alegria sobrevive. E é assim que os homens sempre serão capazes de amar.

Sob está magnífica e acinzentada tarde morna invernal, vou caminhando pelos ocos da minha cidade, pelas ruas e esquinas que carrego em mim, eu e a minha cidade, ambos com rombos de sonhos desfeitos, buscando alguma coisa que possa explicar tamanha vagotonia. Mas vou decidido, caminhando com a minha alegria alvinegra e meu ponte-pretano coração.

O bom e velho amigo sol vai se escarrapachando lá pelos lados de Indaiatuba e, um pouco mais adiante, em Sato de Itu, morava a minha madrinha Lídia. Há mais de sessenta anos que não tenho mais um colo dela ou um único beijo. Madrinha era para ocupar o lugar da mãe, mas acho que ela morreu sem saber que eu já tinha perdido o colo da sua comadre.

Dia desses, passei por um jardim de uma casa da Vila Industrial e roubei uma folha de erva cidreira. Esfreguei-a em meus dedos e segui o meu caminho para a Vila Teixeira. E assim lembrei do chá com limão e alho que a minha mãe fazia quando algum filho gripava. Mas bom mesmo era quando as suas mãos anoitecidas, insones, retiravam o meu pijama molhado de suor e lentamente passava uma camada de cânfora em meu peito ponte-pretano. Depois, carinhosamente me vestia, dava mais uma medida na febre com as costas da mão em minha testa e, prazer divinal, um beijo no meu rosto – e a mão era a mesma que tantas vezes me chinelou.

Hoje, Nega Véia, vou revê-la em campos de muita saudade. Ando doido pra lhe dar um beijo de aniversário estalado no seu cangote. E dê um forte abraço de goiabeira nos nossos meninos. E que os deuses do Taquaral continuem protegendo os seculares muros do Majestoso. Será mais um ano de paixão e saudade...

Bom dia.