Publicado 11 de Agosto de 2018 - 5h30

A foto de capa da manchete do Correio Popular do último domingo impressionou. Na imagem aérea, uma enorme mancha verde de quase 4 quilômetros de plantas aquáticas dominava o cenário da Represa de Salto Grande, em Americana. Anteontem, o Grupo RAC fez uma expedição de lancha pelo local e constatou que o excesso de aguapés é só um de vários problemas que afetam as praias Azul e dos Namorados, antigos pontos turísticos da região e que hoje são retratos de abandono do poder público e depósitos de despejo de esgoto clandestino residencial e industrial.

Nos mais de 35 quilômetros percorridos sobre as águas, passando também pelo Rio Atibaia, a equipe de reportagem viu de perto aquilo que as fotos tiradas com um drone já insinuavam: em alguns trechos, há embarcações e até casas ilhadas pelas macrófitas – como são plantas flutuantes, elas podem se aglomerar em um mesmo ponto conforme a posição dos ventos.

A própria lancha em que o Grupo RAC ‘pegou carona’ para desvendar a represa ficou presa em meio aos aguapés e até troncos de árvore que boiavam em alguns momentos. É cena comum avistar pescadores precisando usar o remo para auxiliar na remoção das plantas e abrir caminho, evitando que o motores de seus barcos quebrem ou sejam danificados.

“Se ninguém fizer nada, a represa vai acabar. Os aguapés estão migrando de uma forma monstruosa. Quem viu as praias (Azul e dos Namorados) há 40 anos e vê ela hoje, até chora”, lamenta o pescador Oscar Fabiano Bueno, o Bié, de 44 anos.

Vale lembrar que os aguapés não são o maior dos problemas. Eles até exercem importante função ambiental, capazes de remover poluentes orgânicos. É o excesso de poluição que na realidade preocupa, pois gera o surgimento de algas e cianobactérias prejudiciais à saúde e, em efeito inevitável, multiplica de forma desenfreada o número de aguapés.

Mas não há só sujeira ou poluição na Represa de Salto Grande. Pelo contrário. Quando superados os trechos dominados pelas plantas aquáticas, o que se vê é uma beleza que poucos americanenses e campineiros devem imaginar que têm tão perto de suas casas. No meio do rio, a natureza está bem preservada em sua volta, nem dando a impressão do local estar tão próximo da civilização. O nascer e o pôr do sol são de se deslumbrar. E há peixes de todos os tipos. Um paraíso para pescadores, e também adeptos de esportes náuticos.

Foi por causa da linda paisagem de natureza da reserva hídrica que Gersino Fernandes, de 49 anos, resolveu largar seu antigo trabalho de auxiliar de enfermagem em Campinas para montar uma casa de repouso para terceira idade na Praia Azul, há seis anos. Ele só lamenta que tanta beleza ao se desbravar o rio é ofuscada pela poluição nas orlas. “Sempre tive o sonho de trabalhar com idosos, e quando descobri esse local, com toda essa beleza da natureza, não pensei duas vezes. A represa em si é uma maravilha, mas infelizmente tem essa questão da poluição que mostra o desleixo que as autoridades tem”, conta.

Técnica adotada no Rio e em BH está em estudo

A busca por soluções na Represa de Salto Grande é antiga, mas a situação tem se tornado ainda mais crítica a cada ano. São 18 os municípios a montante da represa, todos com sua parcela de responsabilidade pela poluição da reserva hídrica.

Há dois anos, a Agência Metropolitana de Campinas (Agencamp) até criou uma Câmara Técnica Especial para levantar recursos para despoluir a represa, mas, até agora, quase nada saiu do papel.

Há um projeto – custoso – nas mãos das autoridades que pode simbolizar o fim dos problemas. Seria a construção de uma Unidade de Tratamento de Rio (UTR) para implantação de uma tecnologia conhecida como Flotflux, mecanismo que é instalado na calha da represa para remoção do material poluente como o fósforo e o nitrogênio. Projetos semelhantes já apresentaram bons resultados na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, e no Piscinão de Ramos, no Rio de Janeiro.

“É um processo físico-químico eficiente para remoção do fósforo, que propicia a proliferação das algas e aguapés. O mais importante é que a poluição removida pode servir de composto orgânico para agricultura e a areia que é retirada com lodo também pode virar tijolo para construção”, explica o CEO da DT Engenharia, que presta este tipo de serviço, João Carlos Gomes de Oliveira.

Segundo ele, a aplicação da técnica no Rio Atibaia, cuja poluição deságua em Salto Grande, tem um custo estimado de R$ 150 milhões.

Em abril, o promotor de Justiça e secretário do Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente (Gaema) PCJ-Piracicaba, Ivan Carneiro Castanheiro, instaurou inquérito para civil para aprofundar ações de combate à poluição difusa envolvendo as cidades do entorno da represa, além da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. “Só remover parte das algas e aguapés é algo paliativo. O importante é que pare de ser depositado nos fundos da represa o fósforo e o nitrogênio por meio dos lançamentos clandestinos. Isso vai exigir uma ação coordenada de todas as prefeituras e governo”, enfatiza o promotor, que ressalta a necessidade de levantar em torno de R$ 240 milhões para controlar t a situação na represa. (RP/AAN)

Câmara de Americana aprova tecnologia alternativa

Nesta semana, a Câmara de Americana aprovou em primeira discussão um projeto que permite a adoção de tecnologias alternativas para ligar com o esgoto de pelo menos 30 residências localizadas nas margens da represa que despejam dejetos na água. A matéria altera a legislação municipal sobre o assunto, tornando permitida a instalação de fossas sépticas biodigestoras nos imóveis no lugar das fossas convencionais que geram gasto de R$ 900 mil por ano Executivo. A tecnologia é aprovada pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e evita que o esgoto das residências seja despejado na água. Atualmente, não há ligação desses imóveis na rede de esgoto. (RP/AAN)