Publicado 13 de Agosto de 2018 - 12h48

Por AFP

Ex-presidente Cristina Kirchner

ALBERTO RAGGIO

Ex-presidente Cristina Kirchner

O "escândalo dos cadernos", um caso judicial envolvendo milhões de dólares em propinas, abalou o meio empresarial como nunca antes na Argentina. Do lado político, o caso atinge a ex-presidente Cristina Kirchner e uma dezena de ex-funcionários seus.

Resvala também em homens de negócios amigos ou parentes do presidente Mauricio Macri. O que surpreende é que jamais houve tantos e tão poderosos empresários envolvidos. São ao menos 20. E a cada dia surge um novo nome de peso.O empresário e primo de Macri, Angelo Calcaterra, se declarou vítima de pedidos de dinheiro do kirchnerismo para financiar campanhas eleitorais. Sentou no banco dos réus o número dois da multinacional Techint, Luis Betnaza. Desfilam grandes empresários como o construtor Carlos Wagner e Juan Carlos De Goycochea, da espanhola Isolux."Não é a primeira vez que importantes empresários vão para a prisão, mas é inédito o número e o motivo", disse à AFP Sergio Morresi, cientista político da Universidade Nacional de San Martín.

São investigados milhões de dólares em supostas propinas saídos dos cofres patronais como contribuição à política por baixo dos panos."O setor empresarial tem um papel relevante neste caso, incluindo a Techint", declarou à AFP o cientista político Rosendo Fraga sobre a companhia ítalo-argentina com investimentos em 100 países. Esta seria a versão argentina do caso Odebrecht? Existiria no país uma espécie de Operação Lava Jato portenha?"O processamento e a prisão de empresários é um fato novo e, considerando a impopularidade e a impunidade que gozam os grandes empresários, é provável que seja bem recebido pela opinião pública", assinalou à AFP o sociólogo Ricardo Rouvier.

Morresi acredita que "um resultado possível é um verdadeiro avanço na transparência, com condenações judiciais".- Os cadernos -O caso se popularizou como o "escândalo dos cadernos". Envolve um motorista arrependido que levava ex-funcionários kirchneristas e anotava detalhadamente movimentos com supostas bolsas de dinheiro: este é Oscar Centeno, expulso do Exército por má conduta."Não há dúvida de que os cadernos descrevem com precisão o modo como o kirchnerismo arrecadou ilegalmente fundos durante sete anos sem que levantasse suspeita de nenhum órgão de controle", disse à AFP Nicolás Solari, da consultora Poliarquía.As anotações de Centeno vão de 2005 a 2015, períodos de governo do falecido ex-presidente Néstor Kirchner e de sua esposa e sucessora, Cristina Kirchner."E agora quem vai colocar dinheiro nas obras públicas? Com a Lava Jato viemos suportando três anos de queda da atividade no Brasil", advertiu Miguel Acevedo, chefe da poderosa União Industrial, que não está envolvido.Os mercados reagiram com quedas da Bolsa e da moeda.

O risco-país subiu a 704 pontos, o maior período de Macri. Caíram ações de empresas argentinas em Wall Street."Temos visto como podem escalar esses casos", disse a consultora Capital Economics em referência ao Peru e Brasil. "Se o governo de Macri se vir envolvido será mais difícil que as agressivas reformas econômicas pactuadas com o FMI passem no Congresso", acrescentou.- Interrogatório a Kirchner -A ex-presidente e senadora Cristina Kirchner, a política opositora de melhor imagem, declara nesta segunda-feira ante Claudio Bonadio, polêmico juiz investigador. Bonadio disse a pessoas próximas que quer levá-la à prisão. Ela se declara como "perseguida política".No desfile de empresários entraram os da chamada "Pátria Contratista", como são conhecidos os que enriqueceram com obras e serviços públicos na ditadura e em governos democráticos.O ex-chefe de gabinete Alberto Fernández denunciou que os empresários próximos ao poder saíram livres e que os que ficaram atrás das grades, por enquanto, são kirchneristas."Alguém pode me explicar como o primo (de Macri) Calcaterra sendo membro da associação criminosa está livre e todos os outros presos?", questionou.

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