Publicado 12 de Agosto de 2018 - 21h22

Por Carlos Rodrigues

O esquadrão do Guarani que ganhou o único título brasileiro de uma equipe do Interior tinha Bozó e Renato (ao lado), que ergueram a taça no intervalo do jogo com o Fortaleza no sábado

Cedoc/RAC

O esquadrão do Guarani que ganhou o único título brasileiro de uma equipe do Interior tinha Bozó e Renato (ao lado), que ergueram a taça no intervalo do jogo com o Fortaleza no sábado

O cronômetro marca 36 minutos do primeiro tempo. Neneca dá um chutão em direção ao campo de ataque, Manguinha desvia e Careca aproveita vacilo de Beto Fuscão para roubar a bola. Na finalização de Bozó, Gilmar defende, mas Careca aparece no rebote e manda no cantinho direito para fazer Guarani 1 x 0 Palmeiras e provocar o delírio da torcida no Brinco de Ouro. Esse breve relato certamente ativa na memória do bugrino um momento inesquecível. Com aquele gol, o clube mudou completamente de status e nesta segunda-feira, no dia em que se comemora 40 anos daquela conquista, o Correio Popular recorda, com depoimentos de personagens daquela campanha, histórias que envolveram o ainda único título brasileiro de uma equipe do Interior.

Era apenas a sexta participação do Guarani em uma edição de Campeonato Brasileiro. Mas, apesar do desempenho positivo durante a década de 70, não havia muito expectativa sobre o desempenho em 1978, ainda mais após a chegada do então desconhecido técnico Carlos Alberto Silva. A equipe era formada por pratas da casa como Mauro, Miranda, Renato e Careca, contava com os mais experientes Neneca e Zé Carlos, além de nomes em busca de afirmação, como Zenon, Capitão e Bozó.

A derrota na estreia para o Vasco, com show de Roberto Dinamite, ajudou a esfriar ainda mais os ânimos. Aos poucos, porém, a equipe foi encontrando o encaixe ideal e, ainda na primeira fase, a vitória no Dérbi por 2 a 1 começou a apresentar um herói. "Eu era moleque, primeiro Dérbi e já fazendo dois gols. Isso ajudou na minha afirmação, para mostrar que eu era um atacante diferenciado. Teve um significado muito grande para mim" , conta Careca, então com 17 anos e protagonista daquele clássico.

Com 16 pontos, o Bugre avançou na quinta posição e foi para a fase seguinte ainda longe de ser considerado um dos favoritos. E a campanha na segunda etapa não mudou muito esse conceito, principalmente após a goleada por 5 a 1 sofrida para o Remo, em Belém. "Tivemos altos e baixos", relembra o ex-meia Renato. "Aquele 5 a 1 deu um alerta na gente" , acrescenta Careca.

Apesar das oscilações, o Guarani deu mais um passo ao terminar na quarta posição da chave e estava a apenas uma fase do mata-mata. Foi então que aquela história começou a encaminhar um final feliz. Em 2 de julho, o clube alviverde foi a Porto Alegre enfrentar o poderoso Internacional de Falcão e Batista. Ridicularizado pela imprensa gaúcha, que ironizou o 'ataque de riso', o time respondeu na bola e na atuação mais espetacular daquela campanha.

Em pleno Beira-Rio, o Bugre fez 3 a 0, fora o baile. "A verdade é que entramos no campeonato apenas para participar. Só que aquela partida contra o Internacional foi um divisor de águas. Vencemos por 3 a 0 e deixamos de apenas participar para disputar o título", diz Zenon. "A gente não se preocupava com os comentários de fora, mas antes de entrar em campo o Carlos Alberto mostrou a gravação pra gente ver a moral que tinha lá. E 3 a 0 foi pouco, era para ter sido cinco ou seis. O Inter deu sorte" , brinca Bozó.

O show de bola serviu para mostrar ao Brasil o que aquela equipe era capaz de fazer. Na sequência, o Bugre empatou com o Goiás por 1 a 1 para, dali em diante, se tornar invencível. Líder do Grupo Q, o Guarani se credenciou para encarar o Sport nas quartas de final e passou por cima do adversário com duas vitórias (2 a 0 em Recife e 4 a 0 no Brinco).

Na semifinal, um novo gigante pela frente. Era o Vasco, o mesmo que havia sido algoz na estreia do campeonato. No reencontro, porém, as coisas foram diferentes e os campineiros impuseram sua força ao abrir vantagem com 2 a 0 em casa e depois, sob a batuta do craque Zenon, bater mais uma vez os cariocas - agora por 2 a 1 - para se garantir na decisão contra o Palmeiras.

A final começou bem antes de a bola rolar no primeiro jogo. O Guarani tinha o direito de realizar a segunda partida em casa, mas a Federação Paulista tinha a intenção de levar os dois confrontos para o Morumbi. A diretoria bugrina, porém, não aceitou e fez valer seu direito conquistado em campo.

"O Ricardo Chuffi (presidente) e o Michel Abib (vice) bateram o pé. Se dependesse da Federação, seriam dois jogos com árbitro paulista e o que você acha que iria acontecer?", indaga Bozó. "É preciso parabenizar a diretoria do Guarani. Eles brigaram pelo segundo jogo em Campinas", destaca Zenon.

Em 10 de agosto, estima-se a presença de 25 mil bugrinos no Morumbi. Depois de tomar alguns sustos, o Guarani equilibrou a partida no segundo tempo e, aos 26 minutos, o menino Careca irritou o experiente Leão. O goleiro acertou a nuca do atacante e foi expulso pelo árbitro Arnaldo César Coelho, que ainda marcou pênalti. O camisa 10 Zenon, que havia levado o terceiro cartão amarelo e estaria suspenso para a finalíssima, deu sua última contribuição em campo com o gol que deixou o clube mais perto do caneco.

"Quando entramos na final eu já tinha certeza que seria campeão" , garante o ex-meia. "Vencemos a primeira partida por 1 a 0 e o fato de não ter atuado o segundo jogo não me deixou magoado. Meu trabalho já estava terminado."

Três dias depois, 28.287 pessoas encheram o Brinco de Ouro para ver a consagração daquele time que começou desacreditado por muitos. O Guarani poderia até perder por um gol de diferença, mas presenteou seu torcedor com mais uma vitória. Graças ao gol descrito no início dessa reportagem, entrou para a história dos campeões.

Escrito por:

Carlos Rodrigues