Publicado 12 de Agosto de 2018 - 18h55

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Papéis principais são recorrentes na carreira de Edson Celulari. Mas, mesmo acostumado ao grande volume de texto e à entrega artística que o posto exige, ele se surpreendeu com o processo de preparação para viver o justo Dom Sabino, patriarca da família de congelados que movimenta a ação de O Tempo Não Para. “Sabino é um homem de época que precisa se adaptar ao mundo de hoje. Tudo o que ele conhecia e tinha, se perdeu com o passar dos anos. Há um tempo que eu não tinha um personagem tão cheio de referências e com tanto texto para decorar. E isso não é uma reclamação”, garante o ator de 60 anos.

Natural de Bauru, interior de São Paulo, Celulari estrou na tevê há exatos 40 anos em Salário Mínimo, produção sem grande repercussão exibida pela já extinta TV Tupi. No início dos anos 1980, assinou com a Globo para um papel secundário em Marina e, apesar de ter passagens pelo SBT e Band, foi na Globo que ele desenvolveu grande parte de sua carreira, tornando-se um ator disputado e galã de tramas como Deus Nos Acuda, Fera Ferida e Explode Coração. Após se curar de um câncer no sistema linfático diagnosticado em 2016, o ator voltou aos poucos para a tevê. Empolgado com as complexidades e o humor realista de O Tempo Não Para, ele acredita que é o projeto perfeito para retornar ao protagonismo e celebrar suas quatro décadas na atuação. “É um projeto ambicioso, criativo e que me deixa muito empolgado”, assume.

TV Press: Dom Sabino é um personagem de época em uma novela contemporânea. Como é encarar esses dois universos no mesmo trabalho?

Edson Celulari: É uma loucura. Mas das boas. Acho que essa novela veio para tirar o horário das sete da mesmice. Até o tom dela é diferente. Trabalhamos como se fosse uma fábula, mas sem esquecer do realismo. Então, meu personagem e todo o núcleo dos congelados funcionam como o contraste entre o passado e o futuro. Eles é que vão avaliar onde o mundo contemporâneo regrediu ou progrediu. Neste bolo, entram assuntos que ainda são extremamente sensíveis para o Brasil, como a questão do racismo e do machismo, por exemplo.

De que forma?

O congelamento ocorreu dois anos antes da abolição dos escravos. Sabino encontra na figura do Eliseu (Milton Gonçalves) um grande amigo. O Eliseu mora em condições mínimas de dignidade e ele cata lixo reciclável nas ruas para poder sobreviver. A condição do povo negro depois de tanto tempo ainda apresenta muita desigualdade e tudo é fruto de como foi feita a transição do regime escravo. A população foi largada à margem pela aristocracia e governo da época. O texto é muito político também.

Inicialmente monarquista e conservador, Sabino vai se abrir para novas visões de mundo?

Alguns pontos ainda serão muito complicados para ele. Como a questão do cuidado com as filhas, por exemplo. Mas ele verá coisas que eram impensáveis em sua época, como a vida da Carmem (Christiane Torloni), uma mulher linda, independente e que criou o filho sozinha. Ele fica encantado com essa visão moderna de uma mulher e isso pode até fazer com que o casamento dele entre em crise. Acho que a única coisa que ele não vai perder é o português mais rebuscado.

Seu último personagem de época foi em Um Só Coração, de 2004. Sentia falta deste tipo de trabalho?

Engraçado é que não é comum me chamarem para fazer época. Fiz coisas lindas como Que Rei Sou Eu? e Aquarela do Brasil, mas grande parte das coisas que fiz foram naturalistas e contemporâneas mesmo. Gosto do trabalho de ter de mergulhar no personagem, buscar referências, testar figurinos diferentes e ir atrás do diferencial que define esses tipos de época. São personagens que exigem muito dos atores. A ponto de invadirem a vida pessoal, por exemplo.

Em que sentido?

Meu português está muito mais rebuscado fora de cena. No estúdio, fico me segurando o tempo todo para não falar “pra” e sim “para”. E esses detalhes linguísticos acabam entrando também no meu cotidiano. Fiquei muito feliz com o convite feito pelo Silvio de Abreu (diretor de Teledramaturgia Diária) e pelo Leonardo Nogueira (diretor artístico). Há muito tempo que eu não vivia um protagonista de forma tão intensa.

O que Dom Sabino tem de diferente de seus últimos heróis?

Não estou desmerecendo meus últimos personagens principais. Mas é que o Sabino é realmente um protagonista trabalhoso. Além de ter de me preparar de forma rebuscada, as falas que tenho de decorar para cada dia de gravação são enormes. Por sorte, o texto do Mário Teixeira é muito completo e sedutor. Esse é meu primeiro protagonista depois dos problemas de saúde que tive. Então, tem um gostinho especial.

Antes de O Tempo Não Para você fez uma pequena participação em Malhação – Vidas Brasileiras e viveu um personagem secundário em A Força do Querer. Esses trabalhos funcionaram como testes?

Quando fui diagnosticado com Linfoma não-Hodgkin (tipo de câncer que afeta o sistema linfático), em 2016, comecei a ter outras prioridades na vida. A sensação de finitude me impulsionou a viver de forma mais plena minha família e meu trabalho. Mas fiquei inseguro sobre como seria minha volta à televisão, se a casa ainda me confiaria bons personagens. Eu estava reservado para a novela da Glória Perez quando iniciei o tratamento. Fazendo quimioterapia e perdendo os cabelos, recebi uma ligação dela perguntando se eu queria e poderia fazer a novela. Falei que até a estreia, eu ainda estaria meio careca. Foi então que ela respondeu: “quero você de qualquer jeito”. Isso me deu ânimo.

E como você avalia seu retorno à tevê após o câncer?

Me senti prestigiado e percebi que fui capaz de fazer grandes amigos ao longo da carreira. Isso é muito precioso. Fiz A Força do Querer e o Dantas foi um personagem muito prazeroso, com um roteiro de gravação mais calmo, mas ótimas cenas e diálogos. Logo depois, fui chamado para viver um político corrupto em Malhação – Vidas Brasileiras. Embora tenha ficado pouco tempo na trama, a convivência com o elenco jovem foi fantástica. E agora, estou aqui entre o passado e o presente com o Dom Sabino. Não tenho motivos para reclamar da vida.

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