Publicado 28 de Fevereiro de 2018 - 15h12

Por Rogério Verzignasse

Fotos Leandro Ferreira

FERROVIA ||| MEDO

Esquecido, trem irrita campineiros

Vagões servem de esconderijo para ladrões e drogaditos no trecho urbano da malha

“Estacionamento”

serve à logística

de transporte

Rogério Verzignasse

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Os moradores da Vila Proost de Souza, tradicional bairro campineiro localizado às margens da ferrovia, estão indignados com o uso da malha como área de estacionamento de vagões. O problema é antigo, e nunca tem solução. O fato é que as empresas responsáveis pela administração do tráfego de trens obedecem uma logística que lhes permite ter carros disponíveis a qualquer hora, para carregamento, em qualquer trecho da concessão. Mas o que é bom para a empresa nem sempre é bom para os vizinhos.

Basta um passeio pela beira da linha. Os vagões ficam ali, parados, por meses. Grande parte deles nem é fechado. Há aberturas laterais e no teto em muitos dos carros. O lado de dentro vira ponto para encontro de desocupados, que passam a noite consumindo drogas. O resultado é notado na manhã seguinte: entre os dormentes, há cachimbos de crack, roupas, garrafas.

Mas o que mais incomoda os moradores da Rua Comendador Bernardo Alves Teixeira, marginal aos trilhos, é a presença de ladrões. O alfaiate Mário Balducci, por exemplo, lembra de um episódio terrível em dezembro de 1999, quando quatro marginais saíram da linha férrea e invadiram sua casa. A polícia foi acionada por vizinhos, os bandidos tentaram fugir, e a perseguição teve até morte. Um dos ladrões foi baleado na troca de tiros. “Eu tenho 77 anos. Há 51 moro aqui. E vi que o bairro pacato se transformou em um inferno com a transformação da ferrovia em depósito de vagões”, fala.

O mecânico Sussumu Matumato, de 54 anos, que vive por ali desde que nasceu, conta que a rapaziada desocupada passa o dia e a noite correndo em cima dos vagões, ou consumindo drogas. A dona de casa Conceição Rizo Pereira, que também mora na quadra há cinco décadas, diz que todo mundo tem medo. “As empresas não se importam com a segurança dos moradores. Os vagões não podem continuar servindo de esconderijo”, reclama. “Esse trem está parado na frente da minha cada há dois meses.”

Muro da discórdia

O trecho da ferrovia que atravessa a zona urbana de Campinas passa por obras desde janeiro. Por determinação do Ministério Público Federal, os municípios são responsáveis pela construção de muros, que impeçam atropelamentos e pontos de travessia irregular ao longo da malha. Em Campinas, o muro de blocos de 2,7 quilômetros custa R$ 1 milhão.

Os vizinhos da Proost de Souza estão indignados com a obra, metade de alvenaria e metade de alambrado. É um obstáculo que impede, sim, a travessia ilegal. Mas que também serve para esconder bandidos. A imagem da linha férrea, clicada de uma passarela de pedestres, mostra os vagões parados no meio do matagal imenso. Não se vê o começo, nem o fim da composição. E o muro de cada lado esconde a manutenção precária.

A FRASE

“Eu não tenho hora para sair ou chegar em casa. Fico rezando para não ser abordado no portão pelos bandidos”

PAULO SÉRGIO HENRIQUE

Motorista particular

BOX

A direção da Rumo/ALL, que detém a concessão para explorar a malha ferroviária no interior de São Paulo, explica que as operações seguem todas as normas estabelecidas em contrato, e que procura “causar o menor impacto possível à população”. Os referidos trens ficam estacionados, aguardando autorização para o carregamento ou para o descarregamento no porto de Santos. Uma questão logística que, segundo a direção, não depende exclusivamente da empresa. As composições, ressalta a nota, ficam em área operacional da ferrovia, sem obstruir qualquer passagem.

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Rogério Verzignasse