Publicado 28 de Fevereiro de 2018 - 12h03

Por Delminda Aparecida Medeiros

Um refúgio para desterrados

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A questão dos refugiados, povos que precisam sair de seus países para fugir da guerra ou da penúria, se agrava a cada dia. Centenas de milhares se pessoas são obrigadas a buscar refúgio em outros países para conseguir sobreviver. Um desses locais é a cidade de São Paulo. Diante dessa realidade gritante, o grupo paulistano Performatron criou o espetáculo São Paulo Refúgio, que apresenta um retrato cru dos impactos da migração forçada na sociedade contemporânea. A montagem faz sessão única hoje no Sesc Campinas. “Criamos o grupo em 2014 para montar esse espetáculo. Na época, andando por São Paulo era possível cruzar com pessoas falando em outras línguas, com roupas diferentes. E a situação só vem se agravando desde então. A curiosidade sobre a história desses imigrantes nos levou a uma pesquisa de campo que durou quase dois anos”, conta Conrado Dess, responsável pela dramaturgia e direção do espetáculo, em que também atua, ao lado de Elise Garcia e Ériko Carvalho, com participação especial do imigrante congolês Tresor Muteba.

Segundo Dess, a pesquisa envolveu parcerias com ONGs como Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem-teto de São Paulo, Mesquita do Pari, Oásis Solidário, Adus, Museu da Imigração, Centro de Referência e Acolhida Para Imigrantes, além de um período de imersão na Ocupação Hotel Cambrigde, local que abriga cerca de 150 famílias, de refugiados estrangeiros e sem tetos brasileiros e já motivou o livro Era o Hotel Cambridge, de Carla Caffé, e o filme homônimo assinado pela diretora Eliane Caffé, sobre a rotina dos refugiados e a tensão criada pela decisão judicial de reintegração de posse do prédio. “Não baseamos o espetáculo em informações de jornais e televisão, colhemos depoimentos, mas não nos restringimos as entrevistas. Convivemos, de fato, com esses refugiados. Assim, aconteceu a participação natural de alguns deles na montagem, que estreou em novembro de 2015 e, desde então, tem se apresentado em locais que vão de salas de teatro, como será em Campinas, a espaços de arena, museus, centros de refugiados”, conta Dess, citando que o espetáculo vai sendo modificado de acordo com a realidade de cada local em que é apresentado.

Histórias de refugiados oriundos de diversas regiões do planeta são apresentadas na forma de cartas e depoimentos que retratam situações, o trauma, a violência, os preconceitos e temores enfrentados por imigrantes forçados a abandonar suas terras natais e a recomeçar suas vidas no Brasil.

São Paulo Refúgio é o primeiro espetáculo do Performatron e aborda a questão do refúgio e da imigração sob a perspectiva da cidade de São Paulo. Resultado de uma pesquisa prática realizada ao longo de dois anos com refugiados de diversas nacionalidades, o trabalho reflete as impressões dos artistas do grupo a respeito da migração forçada na sociedade contemporânea.

O espetáculo é composto por três movimentos que retratam diferentes momentos do processo de mudança. No Movimento 1 - A Vida e Guerra -, é abordado o período anterior a migração, quando situações de violência, vulnerabilidade e miséria modificam profundamente a realidade de um país e acabam por provocar movimentos migratórios forçados. A Mudança, Movimento 2, retrata as dificuldades do processo de travessia, da busca por um novo país e do choque da chegada. Por fim, em Cultura em Choque, o Movimento 3, são abordadas as dificuldades de integração e o choque cultural sofrido por imigrantes e refugiados ao se depararem com a realidade brasileira. “A língua é um dos principais problemas. Mas eles chegam aqui sem saber nada das ações do dia a dia, da cultura. Aos poucos vão aprendendo, mas não falar fluentemente o português continua o maior entrave para o mercado de trabalho”, explica Dess.

Saiba mais

De acordo com dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), em 2016 o Brasil abrigava 9.552 refugiados reconhecidos, de 82 nacionalidades distintas; dados, esses, que têm aumentado progressivamente nos últimos anos.

Trechos do texto de São Paulo Refúgio

“As pessoas me perguntam: sua vida é melhor aqui ou lá? Lá. Minha vida era melhor lá e se eu pudesse escolher eu escolheria lá, na minha casa, com a minha família, sendo negro onde eu não sinto o racismo, sendo jornalista onde eu tenho um diploma, falando a língua que minha mãe me ensinou quando eu era criança e abraçando meus irmãos quando eu os encontro na rua.”

“Nonagésima noite. Eu durmo todos os dias. Não sei mais o que é barulho e o que é silêncio. Esqueci meu rosto e o de quem gosta de mim, ms permaneço vivo.”

Agende-se

O quê: São Paulo Refúgio

Quando: Hoje (1), às 20h

Onde: Sesc Campinas (Rua Dom José I, 270/333, Bonfim, fone: 3737-1500)

Quanto: De R$ 5,00 a R$ 17,00

Escrito por:

Delminda Aparecida Medeiros